Apesar do cenário macroeconômico adverso que abalou os resultados de concorrentes, o Itaú entregou números em linha com as expectativas do mercado. No entanto, o tom do CEO Milton Maluhy, em conferência com jornalistas, foi de sobriedade e cautela, apontando para um horizonte ainda incerto, marcado por juros elevados e novas tensões geopolíticas.

A leitura aqui é clara: a performance resiliente do Itaú não é fruto do acaso, mas de uma estratégia deliberada de gestão de risco que prioriza a solidez do balanço em detrimento de um crescimento a qualquer custo. O banco se posiciona como um transatlântico que navega a tormenta com motores ajustados, ciente de que a velocidade excessiva pode ser fatal.

A blindagem da carteira

A fórmula de Milton Maluhy para navegar na incerteza se apoia em um pilar central: a qualidade da carteira de crédito. O foco, segundo o executivo, é concentrar a atuação em grupos de clientes com maior resiliência ao longo do ciclo econômico. O resultado dessa disciplina é um indicador de inadimplência que representa cerca de metade da média do sistema financeiro nacional.

Essa blindagem não significou paralisia. A carteira de crédito total do banco avançou 9,6%, para R$ 1,5 trilhão, demonstrando que é possível crescer de forma seletiva. O destaque foi o avanço de 14,3% no crédito consignado para o setor privado, um segmento que combina expansão com um risco relativamente mais controlado. O movimento sugere uma busca por crescimento qualificado, onde o risco é mais previsível.

O preço da cautela

Contudo, a prudência tem seu preço. O sinal mais evidente do custo dessa estratégia está na drástica revisão das projeções de crescimento. O banco reduziu praticamente pela metade a expectativa de avanço da receita com prestação de serviços e seguros para 2026, de uma faixa de 5-9% para 2-5%. É a admissão tácita de que o ambiente não permite otimismo exagerado.

As preocupações de Maluhy extrapolam a operação do banco e funcionam como um termômetro da economia. A atenção do CEO se volta para a política de juros do Federal Reserve nos EUA, a trajetória fiscal do governo brasileiro e a volatilidade eleitoral. Fica evidente que, por mais robusta que seja sua gestão interna, o Itaú não está imune aos choques sistêmicos que podem afetar a atividade econômica e a capacidade de pagamento de famílias e empresas.

A estratégia do Itaú se torna, assim, um estudo de caso sobre liderança corporativa em um ambiente de alta instabilidade. A aposta na resiliência tem se mostrado acertada, mas a questão que permanece no ar é por quanto tempo o modo defensivo será necessário e o que isso sinaliza sobre a profundidade e a duração do atual ciclo econômico brasileiro.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times