Longe do centro cirúrgico e do leito do hospital, um biólogo analisa uma sequência genética que pode definir o prognóstico de um paciente. Em outro ponto da cidade, uma assistente social mapeia as condições de moradia e a rede de apoio de um idoso recém-saído de uma internação. Embora essenciais, esses profissionais operam, em muitos sistemas, numa zona cinzenta de reconhecimento formal.

Esses dois cenários, antes vistos como auxiliares, estão no centro de um debate que pode redesenhar as fronteiras da saúde na Espanha. A Mesa do Congresso dos Deputados do país admitiu para trâmite uma proposição de lei para reconhecer oficialmente a biologia e o trabalho social como profissões sanitárias. A iniciativa, apoiada por uma ampla coalizão de partidos, busca alinhar a legislação à prática assistencial, onde ambos os perfis já são considerados “imprescindíveis”, nas palavras da ministra da Saúde, Mónica García.

Redefinindo o ato sanitário

A proposta legislativa não é apenas uma formalidade burocrática; ela representa uma atualização conceitual do que se entende por cuidado em saúde. O texto reconhece que biólogos desempenham há anos “funções nucleares” em áreas como laboratórios clínicos, diagnóstico genético, microbiologia e reprodução humana assistida. Seu trabalho, segundo a justificativa da lei, tem impacto direto no diagnóstico, prognóstico e na tomada de decisões clínicas. O reconhecimento virá acompanhado de exigências, como a necessidade de título de especialista para atuar no sistema público.

Da mesma forma, o projeto de lei destaca o “papel estrutural” do trabalho social no âmbito sanitário. Atividades como a avaliação social, o diagnóstico dos determinantes sociais da saúde e a coordenação entre os sistemas de saúde e de assistência social são vistas como cruciais para uma abordagem integral do paciente. O reconhecimento formaliza uma realidade já consolidada: a de que a saúde de um indivíduo é indissociável de seu contexto social e econômico.

O movimento espanhol, portanto, é menos sobre uma mudança de nomenclatura e mais sobre uma profunda reavaliação filosófica do que constitui o cuidado. A medida força uma reflexão sobre os limites, muitas vezes artificiais, entre as diversas disciplinas que contribuem para o bem-estar. A questão que fica no ar não é apenas se a lei será aprovada, mas até que ponto outros sistemas de saúde, incluindo o brasileiro, estão dispostos a alargar suas próprias definições de quem está na linha de frente.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España