Mil e cem páginas de um diário pessoal, expostas ao mundo. Este foi o destino dos registros de Anthony Fauci, o médico e cientista que se tornou o rosto da resposta americana à pandemia de covid-19. Obtido e publicado por um comitê do Senado dos EUA, o diário virou a peça central de um espetáculo político que busca encontrar em Fauci o vilão para uma das maiores tragédias sanitárias da história moderna. O esforço, contudo, parece mais uma tentativa de reescrever a história do que de entendê-la.
A caça a Fauci desvia o foco de uma questão mais incômoda: quem se beneficia ao transformar um burocrata da saúde em inimigo público? A resposta, segundo uma análise aprofundada dos fatos publicada pela revista The Atlantic, aponta para o establishment político que, liderado por Donald Trump, optou por uma estratégia de negação, desinformação e busca por culpados externos. A tese é que Fauci só foi alçado à posição de liderança e, posteriormente, de alvo, pela completa abdicação de responsabilidade do então presidente.
A anatomia de uma catástrofe politizada
No início de 2020, a prioridade de Donald Trump não era um vírus desconhecido, mas salvar um acordo comercial com a China que pudesse impulsionar o mercado de ações e, por consequência, sua reeleição. Reportagens da época registraram 37 elogios públicos de Trump à liderança de Xi Jinping nos primeiros meses do ano, numa tentativa de conter o pânico financeiro. Em conversas privadas com o jornalista Bob Woodward, Trump admitia esperar uma catástrofe de vítimas em massa, mas publicamente, a ordem era minimizar. "Eu sempre quis minimizar. Eu ainda gosto de minimizar, porque não quero criar pânico", confessou.
Quando a realidade se impôs e o número de mortos escalou, a estratégia da Casa Branca e de seus aliados na mídia conservadora mudou de negação para ataque. O primeiro alvo foi externo: o vírus foi rebatizado de "vírus chinês". O segundo foi a busca por soluções mágicas, que dispensariam medidas impopulares como o lockdown. A hidroxicloroquina, um antimalárico, foi promovida centenas de vezes na Fox News, seguida pela ivermectina. A ciência foi substituída pelo dogma, e a saúde pública, pelo cálculo político. O resultado, segundo um estudo do Pew Research Center, foi uma mortalidade significativamente maior nos condados mais alinhados a Trump em comparação com os mais alinhados a Joe Biden.
O legado da desconfiança
Com a derrota de Trump e a chegada das vacinas, o roteiro mudou novamente. O objetivo passou a ser sabotar a recuperação econômica sob a nova administração Biden, e a arma escolhida foi a desconfiança na ciência. O movimento antivacina, antes uma franja, foi abraçado por figuras proeminentes do Partido Republicano. O caso do governador da Flórida, Ron DeSantis, é emblemático. Após promover ativamente a vacinação em 2021, ele mudou de tom ao perceber o capital político que poderia extrair do ceticismo conspiratório, chegando a nomear um cirurgião-geral antivacina para o estado e a pedir investigações sobre supostos danos causados pelos imunizantes.
É neste contexto que a investigação sobre Anthony Fauci ganha tração. As acusações — de que ele sabia da origem laboratorial do vírus ou de que suas recomendações foram falhas — perdem força diante do quadro geral. Críticos apontam que estados democratas também cometeram erros, como manter escolas fechadas por tempo excessivo. No entanto, a análise dos fatos sugere uma diferença de escala. De um lado, equívocos na gestão de uma crise sem precedentes; de outro, uma campanha deliberada de desinformação que, segundo algumas estimativas, pode ter custado mais de 300 mil vidas americanas que poderiam ter sido salvas com uma vacinação mais ampla e rápida.
O julgamento de Fauci no tribunal da opinião pública é, portanto, menos sobre seus erros e acertos e mais sobre a necessidade de encontrar um culpado conveniente. Ele se tornou o bode expiatório para uma falha coletiva muito mais profunda, enraizada na polarização e na erosão da confiança nas instituições. Enquanto o espetáculo continua, a fatura de uma pandemia mal gerida por razões políticas permanece, indelével, nos obituários. A questão que fica não é se Fauci foi um herói ou vilão, mas se uma sociedade que precisa fabricar um para cada crise é capaz de aprender com seus próprios erros.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · The Atlantic — Ideas





