Publicado em 1978, o romance “Gaining Ground” da canadense Joan Barfoot tornou-se um marco da literatura feminista e ecológica. A premissa é um ato de renúncia radical: uma mulher abandona sua vida, seu passado e sua identidade para se isolar em uma cabana rústica, buscando uma fusão com a natureza. A obra, cujo trecho foi recentemente republicado pelo portal literário Lit Hub, transcende a simples fantasia de um retorno à terra.

A narrativa em primeira pessoa revela que a descoberta do lar não foi um conforto, mas “um choque elétrico, agudo e abrupto, estranho e terrivelmente doloroso”. É a partir dessa premissa desconfortável que o romance constrói sua tese. O pertencimento genuíno não é uma chegada pacífica, mas uma colisão que desintegra o antigo eu. A análise que se segue explora como Barfoot desconstrói as ferramentas da identidade moderna — o relógio e o espelho — para forjar uma nova forma de existência, enraizada no mundo físico e em seus ciclos.

A desconstrução do eu

O ponto de partida da protagonista não é a busca por um idílio pastoral, mas a fuga de uma vida que se desintegrou. A identificação com a cabana é imediata, mas violenta. Essa inversão subverte a narrativa convencional do “retorno à natureza”. Não se trata de encontrar a paz, mas de confrontar uma verdade fundamental sobre si mesma que exige a aniquilação do ser anterior. O lar, aqui, não é um refúgio, mas o epicentro de uma transformação sísmica que realinha a própria alma.

Para que essa transformação ocorra, a narradora abdica de dois artefatos centrais da vida moderna: espelhos e relógios. “Agora eu provo minha existência pelo que faço”, ela escreve. O espelho, que reflete um eu social e exige conformidade, é descartado. A identidade deixa de ser uma imagem a ser mantida e passa a ser uma condição vivida, sentida no corpo. O relógio, que impõe um ritmo externo e fragmenta a vida em tarefas cronometradas, também é abandonado. Em seu lugar, entra o tempo da natureza: um trabalho “leva simplesmente o que leva”, e a medida do progresso é uma pilha de lenha que cresce a cada dia.

O ritmo da terra

Essa nova temporalidade dita a própria estrutura da narrativa. As descrições detalhadas e quase ritualísticas das tarefas sazonais — plantar, colher, conservar alimentos, cortar lenha — não são meros detalhes de ambientação. Elas são a própria substância da trama. A vida da protagonista é definida pela fisicalidade de sua existência. O propósito não é mais abstrato ou medido pelo tempo, como em sua “vida antiga”, mas concreto e visível no ambiente que ela cultiva e que, por sua vez, a cultiva de volta.

Apesar da fusão quase completa, a narradora admite a fragilidade desse estado. “Lembrar me separou disso”, ela reflete, reconhecendo que o próprio ato de contar sua história reintroduz a dualidade sujeito-objeto que ela tentou dissolver. A recente visita de uma mulher chamada Katie também perfura essa bolha de solipsismo, tornando-a subitamente autoconsciente sobre sua aparência. O romance sugere, com isso, que a imersão total na natureza não é um estado permanente, mas uma prática contínua e frágil, sempre suscetível à disrupção do mundo social e da própria memória.

“Gaining Ground” ressoa com uma força particular hoje, em uma era marcada pelo burnout digital e pela busca incessante por uma vida mais “autêntica”. A obra não oferece um manual de instruções ou uma solução fácil. Em vez disso, deixa uma pergunta incômoda, que ecoa décadas após sua publicação: que estruturas fundamentais de nossas vidas — nossos espelhos digitais, nossos relógios movidos a notificações — precisaríamos quebrar para sentir o choque de, finalmente, chegar em casa?

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Lit Hub