“Toque um botão, receba uma corrida.” O mantra que guiava os primeiros dias do Uber, e depois do Uber Eats, era a busca obsessiva pela eliminação do atrito. Em uma passagem da Fast Company, uma ex-executiva da empresa narra como a entrega de um hambúrguer se tornava uma operação de guerra cronometrada. Atrasos de minutos eram motivo de pânico. O objetivo era a mágica da conveniência, um mundo onde qualquer desejo — um carro, um jantar, um encontro — estivesse à distância de um toque na tela.

Essa busca implacável pelo “frictionless” a levou, ironicamente, a buscar o exato oposto em sua vida pessoal. Ela se juntou a um rali de carros antigos pela Europa, uma experiência definida pela fricção. As regras eram a antítese de seu trabalho: sem GPS, carros com mais de 30 anos que quebravam constantemente e a serendipidade de trocar de parceiros de viagem a cada dia. Horas perdidas na beira de uma estrada na Croácia esperando por um pneu novo não eram um bug, mas a feature. Era a aventura.

Demorou anos para que ela notasse a justaposição: era paga para eliminar a inconveniência da vida de todos, mas pagava caro para comprá-la de volta para si. O atrito, antes um dado universal e gratuito da existência, foi transformado em artigo de luxo. A cabana sem Wi-Fi, a escola sem telas para os filhos dos executivos de tecnologia, o rali de carros clássicos em vez do veículo autônomo. A inconveniência foi reembalada e vendida para quem pode pagar.

A reflexão final se estende à próxima fronteira: a terceirização do próprio pensamento para a inteligência artificial. Se a fricção do esforço mental também for eliminada, o que será vendido de volta para nós, e a que preço?

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fast Company