O que define o luxo em uma era de produtos desenhados para a obsolescência? A pergunta, suspensa no ar da Semana de Design de Milão, não busca respostas fáceis. Em um debate recente, um grupo de arquitetos se propôs a desconstruir a própria ideia de exclusividade, afastando-se da estética superficial para mergulhar no que chamam de "luxo com propósito". A discussão, parte do podcast Room For Dreams e reportada pela revista Designboom, revela uma profunda cisão conceitual no mundo do design.
De um lado, persiste a visão tradicional: luxo como sinônimo de privacidade, silêncio e conforto sensorial. É a exclusividade total, o refúgio do mundo. Do outro, emerge uma perspectiva que desloca o valor do privado para o público. Nesta ótica, o verdadeiro luxo estaria em infraestrutura cívica de alta qualidade, em arquitetura e arte que habitam espaços compartilhados e envelhecem com dignidade, refletindo as vidas que por ali passaram. O valor não está no que se possui, mas no que se pode usufruir de forma duradoura.
Esse foco na permanência conduz naturalmente ao artesanato local. Os arquitetos no debate apontam o trabalho manual como uma alternativa deliberada à produção em massa, uma forma de injetar um elemento humano em interiores que a automação não consegue capturar. É uma abordagem lenta, que ecoa os princípios do slow-living e redefine a sustentabilidade no design de alto padrão — um contraponto ao excesso material historicamente atrelado ao setor.
O novo luxo, portanto, parece ser menos sobre ter e mais sobre ser e permanecer. Menos sobre o brilho efêmero e mais sobre a pátina do tempo. A questão que fica no ar não é apenas sobre o que consumimos, mas sobre como desejamos viver e, principalmente, o que decidimos deixar para trás.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Designboom




