A trajetória de Francesco Risso é o tipo de currículo que define uma geração na moda de luxo. Formado na Central Saint Martins, passou uma década na Prada antes de assumir a direção criativa da Marni, onde, por outros dez anos, redefiniu a marca com uma estética vibrante e idiossincrática. Sua carreira parecia um roteiro previsível no panteão europeu. Por isso, o anúncio de sua ida para a GU — uma gigante japonesa de fast fashion em plena expansão global — soou como uma quebra de narrativa.

Para Risso, no entanto, o movimento é uma progressão natural. Em entrevista ao Highsnobiety, ele descreve a mudança não como um rebaixamento, mas como uma busca por uma nova perspectiva. A GU, parte do conglomerado Fast Retailing, é a irmã mais nova e experimental da Uniqlo. Onde a Uniqlo se tornou um fenômeno global ao aperfeiçoar o básico com precisão japonesa, a GU busca um público mais jovem e expressivo. É nesse território que a aparente contradição se desfaz: o designer conhecido por suas jaquetas psicodélicas e sapatos de arte pop encontra um novo lar.

A visão por trás da escala

A aliança entre Risso e a GU não é sobre replicar tendências de passarela a baixo custo, o modelo tradicional do fast fashion. Pelo contrário, o designer italiano afirma compartilhar com o fundador da empresa, Tadashi Yanai, uma paixão pelo design atemporal e pela funcionalidade. “GU quer apelar para uma audiência mais divertida, menos clássica”, explica Risso. “Há a necessidade de entregar um senso de expressão”.

Nesse sentido, a transição parece menos um salto no escuro e mais uma continuação de seu trabalho por outros meios. A Marni, sob sua batuta, sempre teve um pé no lúdico e no artístico. A GU, por sua vez, é descrita por ele como “o irmão expressivo e mais divertido” da pragmática Uniqlo. O desafio, portanto, não é simplificar sua visão, mas adaptá-la para a velocidade e a escala do varejo de massa, transformando expressão em produto acessível.

O laboratório japonês

Longe de ver a produção em massa como uma limitação, Risso se diz fascinado pela agilidade do processo. A velocidade com que uma coleção vai do estúdio para as ruas gera uma conversa imediata com o público, um ciclo de feedback que molda o pensamento criativo em tempo real. “É uma conversa muito imediata que acontece no momento”, diz ele. “Isso é o mais intrigante”.

Ele também se mostra impressionado com o rigor técnico da equipe japonesa, comparando a qualidade dos protótipos, ou toiles, à alta arte da manufatura parisiense. “Nunca vi toiles feitas da maneira que os japoneses [...] fazem. Às vezes, você só quer colocar uma etiqueta e vender aquilo mesmo”. A percepção é que, em vez de sacrificar a qualidade em nome do volume, a GU oferece um novo tipo de laboratório para um designer que busca expandir seu repertório.

Depois de deixar a Marni, Risso falou sobre a necessidade de “reflexão”. Agora, parece que ele encontrou uma forma de refletir em movimento, usando o alcance global da GU como um novo espelho. A contemplação não acontece no isolamento, mas na fricção com o mundo real, em uma escala que o luxo não permite. Como ele mesmo brinca, talvez continue refletindo até o fim. A moda global estará observando.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Highsnobiety