A imagem é um soco no estômago disfarçado de poesia. Uma figura solitária segura algo pequeno, frágil, retirado do mar. O título da obra, da fotógrafa francesa Oriane Jacquel, é uma pergunta que ecoa para além da moldura: “¿La última?”. Com essa imagem, capturada na costa catalã, Jacquel não apenas venceu o prêmio principal do MedFoto 2026, o mais relevante concurso de fotografia do Mediterrâneo, mas também cristalizou o dilema de nosso tempo: como admirar a beleza enquanto se documenta sua extinção.
O certame, que em sua sexta edição atraiu mais de 1.300 imagens de 107 fotógrafos, confirma uma mudança de paradigma. A fotografia de natureza, por muito tempo um refúgio estético, torna-se cada vez mais um ato de militância. As categorias premiadas, como “Conservação e Mudança Climática”, vencida por Fernando Estarellas com a obra “Olas de calor”, não deixam dúvidas. O objetivo, segundo a organização do Club Nàutic l’Escala e da Fundación Alive, é usar a arte como ferramenta de sensibilização.
A reportagem da Forbes España sobre o prêmio aponta para uma narrativa mais complexa. Não se trata mais de capturar o pôr do sol perfeito ou a onda ideal. As lentes agora buscam o isópodo em seu habitat subaquático, como na foto de Xavier Mas Ferrà, ou o ofício tradicional de um pescador que talvez não exista mais para a próxima geração, registrado por Fernando Béjar. Cada clique é um dado, um registro de um ecossistema sob imensa pressão.
A exposição das obras, montada ao ar livre em um cais na Catalunha, coloca essa tensão em contato direto com o público. As imagens premiadas não oferecem respostas. Elas devolvem a pergunta ao espectador, ao turista, ao morador. Diante da beleza que se esvai, o que a próxima lente irá capturar: a memória de um mundo perdido ou o primeiro vislumbre de sua recuperação?
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Forbes España





