Em Los Angeles, uma estrutura que se assemelha a uma nave espacial pousou no Exposition Park. É o Lucas Museum of Narrative Art, um projeto de US$ 1 bilhão do cineasta George Lucas e sua esposa, a executiva Mellody Hobson. A promessa é monumental: dar o devido respeito a gêneros como ilustração, quadrinhos e arte fantástica, celebrando o que eles chamam de “storytelling visual”. Contudo, uma visita prévia para a imprensa, reportada pela publicação de arte Hyperallergic, sugere que, ironicamente, a narrativa foi a primeira a ser deixada de fora.

Dentro do museu, a curadoria parece ter abdicado de sua função mais básica: construir uma narrativa. O acervo é fragmentado em galerias temáticas — Aventura, Romance, Maternidade, Ficção Científica — que misturam obras de diferentes épocas, estilos e contextos culturais sob o mais frágil dos pretextos. Não há textos de parede para guiar o visitante, apenas letras metálicas anunciando cada seção. O resultado, segundo a crítica, é um achatamento das diferenças, uma celebração de uma unidade superficial que ignora as tensões, os conflitos e as condições sociais específicas de onde cada obra emergiu.

A curadoria do consenso

A filosofia por trás da empreitada parece ter sido verbalizada pelo próprio Lucas. “A Arte Narrativa cria grupos de pessoas com sistemas de crenças comuns, o que lhes permite trabalhar juntas e não se matarem”, afirmou o cineasta. A frase é reveladora. A leitura aqui é que o museu não foi concebido como um espaço para o debate ou a complexidade, mas como uma ferramenta para forjar consenso. A justaposição de um quadro de Norman Rockwell com uma ilustração de fantasia não busca o diálogo, mas sim afirmar uma humanidade genérica e despolitizada: “veja, todos nós amamos, trabalhamos, praticamos esportes”.

O paradoxo do popular

O paradoxo central do museu é que, ao tentar elevar a chamada “arte popular”, ele acaba por infantilizá-la. Gêneros que prosperam na especificidade de seus mundos, na riqueza de seus contextos e na devoção de seus nichos são apresentados de forma descontextualizada, como meros exemplos de um tema universal. A instituição que se propõe a dar o “respeito que eles merecem” a esses trabalhos acaba por lhes negar o respeito da análise crítica e curatorial séria. O gesto filantrópico bilionário, embora bem-intencionado, reflete uma visão de mundo particular — a de seus fundadores — que parece mais interessada em pacificar do que em provocar.

A arquitetura futurista de Ma Yansong promete uma jornada a outro lugar. Resta saber se um museu que evita atritos e complexidades pode, de fato, levar seus visitantes a qualquer lugar novo, ou se a viagem termina na superfície polida de suas próprias paredes, com as histórias presas no chão.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Hyperallergic