Após quase duas décadas de planejamento, mudanças de cidade e um custo superior a US$ 1 bilhão, o Lucas Museum of Narrative Art finalmente abre as portas em Los Angeles. Idealizado pelo cineasta George Lucas e sua esposa, a executiva Mellody Hobson, o museu nasce com a nobre missão de celebrar a “arte narrativa” e desafiar as hierarquias que separam a alta cultura da ilustração e da arte popular.
Contudo, a execução parece ter falhado em seu pilar mais elementar: a narrativa. Segundo uma análise aprofundada da publicação especializada ARTnews, a instituição optou por uma abordagem radical que privilegia o olhar em detrimento do entendimento, eliminando quase que por completo os textos de parede, etiquetas explicativas e qualquer fio condutor curatorial. O resultado é um acervo impressionante de obras desconexas que, sem contexto, transforma uma instituição com potencial em um suntuoso projeto de vaidade.
A tirania do olhar
A defesa do museu é que a experiência visual deve ser priorizada, sem a interferência de textos. A tese é que o público deve formar suas próprias interpretações. Na prática, porém, a ausência de mediação não democratiza, mas sim empobrece a visita. Um museu não é apenas um depósito de objetos; é uma instituição de produção e disseminação de conhecimento. Ao abdicar desse papel, o Lucas Museum se distancia de seus pares globais e deixa o visitante à deriva.
A falha se torna flagrante diante de obras complexas. Um exemplo é "The Problem We All Live With" (1964), de Norman Rockwell, que retrata a pequena Ruby Bridges, de seis anos, sendo escoltada por agentes federais para integrar uma escola no sul dos Estados Unidos. Sem uma legenda, o visitante casual pode não compreender o peso histórico da cena ou o significado da ofensa racial pichada no muro. Em um museu localizado em South Los Angeles, um bairro historicamente negro, a omissão é ainda mais grave. A decisão de demitir parte da equipe de educação meses antes da abertura, conforme reportado, apenas reforça a percepção de que o diálogo com o público não é uma prioridade.
Uma coleção de hiatos
Como um museu fundado por colecionadores, o acervo reflete inevitavelmente o gosto pessoal de Lucas e Hobson. A coleção é robusta em ilustradores americanos do século XX, como o próprio Rockwell, mas apresenta lacunas gritantes. Segundo a crítica da ARTnews, a representação de mulheres, artistas não-brancos e temas queer é mínima. As poucas obras de artistas negros ou latinos de peso, como Robert Colescott e Judith Baca, parecem aquisições tardias para preencher uma cota, mas seu poder crítico se perde sem a devida contextualização.
Essa falta de diversidade se estende aos formatos. Quase não há escultura, fotografia conceitual ou videoarte — omissões surpreendentes para um museu fundado por um ícone do cinema. A experiência se assemelha mais a uma caminhada pelo HD de um colecionador do que a uma jornada coerente por um campo artístico. Instituições como o The Met, em Nova York, ou o Crystal Bridges, no Arkansas, também nasceram de coleções privadas, mas evoluíram ao entregar as chaves da curadoria a profissionais capazes de construir uma narrativa institucional. O Lucas Museum, em seu estado atual, parece ter pulado essa etapa fundamental.
A ironia é palpável: o maior contador de histórias de Hollywood construiu um museu que se recusa a contar uma. A arquitetura futurista de Ma Yansong é um marco para Los Angeles e o programa de cinema promete ser um ponto alto. Mas, como museu, a experiência é a de uma superprodução com efeitos visuais deslumbrantes, mas sem roteiro. É uma casca magnífica que deixa o espectador se perguntando sobre o conteúdo que deveria estar ali dentro.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · ARTnews





