O iFood anunciou um plano de investimento de R$ 24 bilhões para o Brasil no ciclo fiscal que vai de abril de 2026 a março de 2027. O valor representa um aumento de 41% sobre os R$ 17 bilhões do ciclo anterior, um sinal de força em um momento de acirramento da concorrência no setor de delivery.
A leitura, porém, vai além da simples injeção de capital. O movimento, detalhado em um evento da companhia em São Paulo, mostra uma ambição de transcender o delivery de refeições e se consolidar como uma plataforma de infraestrutura para o comércio local. Enquanto enfrenta embates no Cade com a reentrada da 99Food e a chegada da Keeta, o iFood aposta em expandir seu campo de jogo.
De marketplace a sistema operacional
O plano de investimento deixa claro que o futuro do iFood não está apenas na entrega, mas na digitalização completa da jornada do consumidor e do comerciante. A expansão para categorias como farmácias, supermercados e pet shops é a face mais visível da estratégia, buscando aumentar a frequência de uso e a fatia da carteira do cliente.
Mais profundamente, a empresa quer se infiltrar na operação dos parceiros. Ao desenvolver ferramentas para reserva de mesas, programas de fidelidade e gestão de salão, o iFood deixa de ser um mero canal de vendas para se tornar um software de gestão indispensável. A vertical financeira, iFood Pago, completa o ecossistema, oferecendo crédito e serviços bancários, o que aprofunda a dependência e o chamado lock-in dos estabelecimentos à sua plataforma.
A aposta na inteligência artificial própria
No centro da estratégia está uma alocação de mais de R$ 2 bilhões para tecnologia, com destaque para o desenvolvimento de um modelo de linguagem próprio. Batizado de Large Commerce Model (LCM) e criado em parceria com a controladora Prosus, o modelo de IA generativa é desenhado para o comércio.
Alimentado por dados de cliques, buscas e compras na plataforma, o LCM visa aprimorar a personalização e a eficiência, um diferencial competitivo crucial. A decisão de construir uma tecnologia proprietária, em vez de licenciar modelos de mercado, sinaliza a intenção de criar um fosso tecnológico, transformando seu vasto volume de dados transacionais em uma barreira de entrada e consolidando o iFood como uma empresa de tecnologia, não apenas de logística.
O investimento bilionário, portanto, é menos sobre ganhar a guerra do delivery e mais sobre garantir que o iFood seja a infraestrutura sobre a qual a próxima década do comércio local brasileiro será construída. É uma demonstração de força que redefine as fronteiras da competição, levando a disputa para os campos de software, dados e finanças.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times





