A expansão da infraestrutura para inteligência artificial, vista como um motor de produtividade, pode ter um efeito colateral indesejado: o aumento da inflação. O alerta partiu de Austan Goolsbee, presidente do Federal Reserve de Chicago, em uma entrevista recente à revista Wired.

A análise de Goolsbee introduz uma variável complexa no cálculo da política monetária. O boom dos data centers não é apenas digital; ele demanda recursos físicos em larga escala, como terrenos e energia, gerando uma pressão de custos que o banco central americano agora monitora com atenção, segundo a reportagem da InfoMoney.

O custo físico do boom digital

Segundo o dirigente do Fed, o paradoxo reside no duplo impacto dos data centers. Se por um lado eles prometem ganhos de eficiência para a economia no longo prazo, no curto prazo sua construção e operação podem superaquecer mercados locais. A demanda por grandes áreas, materiais de construção e, principalmente, eletricidade, eleva os preços de insumos básicos.

Essa dinâmica transforma o avanço tecnológico em um fator de pressão inflacionária tangível. A corrida para construir a espinha dorsal da IA compete por recursos finitos, um fenômeno que destoa da narrativa, comum no setor de tecnologia, de que a digitalização é uma força puramente desinflacionária. O custo da infraestrutura física está se tornando uma variável macroeconômica relevante.

Um novo fator na equação monetária

Para o Federal Reserve, cujo principal desafio contemporâneo é o controle da inflação — em contraste com a crise financeira de 2008 —, esse cenário adiciona uma camada de complexidade. Goolsbee ressaltou que, embora o mercado de trabalho não mostre sinais de recessão, a hesitação das empresas em contratar é um ponto de atenção.

A visão de um membro do Fomc dissocia a euforia do mercado de ações, que celebra o potencial da IA com recordes sucessivos, da realidade macroeconômica. O desempenho dos papéis de tecnologia não reflete necessariamente o estado da economia real, onde a construção dessa mesma tecnologia pode estar semeando a inflação que o banco central luta para conter.

O debate aberto por Goolsbee não oferece respostas fáceis. Ele sinaliza que os bancos centrais talvez precisem calibrar seus modelos para um novo tipo de choque de demanda, onde o progresso tecnológico se torna, ele mesmo, uma fonte de pressão sobre os preços no mundo físico. A questão que fica é como equilibrar o incentivo à inovação com a necessidade de estabilidade macroeconômica.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney