Grandes fundos de investimento, antes focados exclusivamente em software e tecnologia, estão mudando de alvo. A nova aposta são pequenas e médias empresas de serviços essenciais como encanadores, eletricistas e técnicos de ar-condicionado. Desde 2022, quase 800 empresas destes setores foram adquiridas por fundos nos Estados Unidos, um movimento que começa a ecoar na Europa, segundo reportagem do site espanhol Xataka.
A tese é um contraponto direto à narrativa de disrupção da IA. Enquanto a tecnologia ameaça automatizar milhões de empregos de escritório, ela paradoxalmente aumenta a demanda por profissões manuais. Afinal, como aponta Larry Fink, CEO da BlackRock, os data centers que sustentam a revolução da IA precisam de eletricistas para serem construídos — e a mão de obra qualificada é cada vez mais escassa.
A tese do mundo físico
O racional do investimento é duplo. Primeiro, a demanda por esses serviços é resiliente e crescente, impulsionada por fatores como as mudanças climáticas — que disparam a procura por sistemas de climatização (HVAC) — e a própria expansão da infraestrutura digital. Um algoritmo pode escrever um código, mas não conserta um vazamento ou instala uma caldeira. O setor de HVAC, por exemplo, já é o campo com maior volume de fusões e aquisições no mundo.
Segundo, o mercado é estruturalmente atrativo para uma estratégia de consolidação. Ele é altamente fragmentado, composto por milhares de pequenos negócios familiares, muitos dos quais enfrentam um vácuo de sucessão geracional. Para o capital, é a oportunidade de criar plataformas regionais ou nacionais, otimizando rotas, gestão e poder de compra, num setor com pouca competição organizada.
O capital encontra a furgoneta
Na Espanha, o movimento já é visível. O fundo Portobello Capital adquiriu a Serveo, de manutenção e climatização, e um novo veículo de € 100 milhões, o Fire Ventures, foi criado para consolidar empresas de proteção contra incêndios. A estratégia é clara: comprar pequenos concorrentes para ganhar escala e dominar a oferta de um recurso cada vez mais valioso: o técnico qualificado.
A ironia é notável. Por anos, o futuro do trabalho foi pintado com a imagem do desenvolvedor de software. Agora, o capital mais sofisticado do mundo aposta que o profissional do futuro talvez se pareça mais com um eletricista. A corrida pela IA não está apenas criando valor no mundo digital; está redefinindo o que é valioso no mundo físico, dos átomos e das ferramentas.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Xataka





