A inteligência artificial se tornou uma faca de dois gumes no ambiente corporativo brasileiro. Enquanto as empresas correm para adotar a tecnologia em busca de produtividade, cresce o temor sobre seu uso em ataques cibernéticos. Um novo estudo da empresa de cibersegurança ESET, no entanto, revela um paradoxo perigoso: o medo do inimigo externo não se traduz em organização interna.

Segundo o ESET Security Report 2026, que ouviu profissionais de segurança na América Latina, 49,2% dos entrevistados no Brasil acreditam que a IA tornará os ataques mais sofisticados. Contudo, 45,3% de suas empresas ainda não possuem qualquer política interna para o uso da tecnologia. A leitura é clara: há uma lacuna crítica entre a percepção do risco e a implementação de salvaguardas básicas.

O perigo mora dentro

O principal risco, aponta o relatório, pode não vir de hackers sofisticados, mas do uso descuidado da tecnologia pelos próprios colaboradores. Na ausência de regras claras, funcionários podem inserir informações estratégicas, dados confidenciais ou propriedade intelectual em plataformas públicas de IA generativa para acelerar tarefas. Como aponta a análise da ESET, o problema não é a ferramenta, mas a falta de governança sobre seu uso, transformando um atalho de produtividade em um vetor de vazamento de dados.

Esse cenário de anomia regulatória interna coexiste com a preocupação crescente sobre ameaças como os deepfakes, citados como um risco principal por 20,3% dos profissionais. A adoção da IA no mundo corporativo segue desigual: enquanto 39,1% das empresas já incentivam o uso com diretrizes, um bloco ainda maior navega sem bússola. Apenas uma pequena minoria (1,6%) optou por uma proibição total, uma estratégia que pode se provar insustentável a longo prazo.

O debate sobre IA nas empresas, portanto, deixou de ser uma questão puramente operacional ou de produtividade. Ele se tornou um pilar central da estratégia de cibersegurança. As organizações que entenderem que a governança da IA é tão crucial quanto sua implementação estarão mais preparadas para um cenário onde a própria natureza das ameaças digitais está sendo redefinida pela tecnologia.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · TIInside