A ascensão de agentes de inteligência artificial autônomos está forçando uma reavaliação fundamental dos dogmas da cibersegurança corporativa. O modelo de Zero Trust, baseado no princípio de “nunca confie, sempre verifique”, pode não ser mais suficiente. O alerta, vindo de especialistas das empresas Cequence Security e e-Safer em reportagem do portal TIInside, aponta para uma nova fronteira de risco: agentes de IA que, embora devidamente autenticados, podem executar ações desalinhadas ou danosas.

Durante anos, a indústria se concentrou em validar a identidade de quem acessa os sistemas. Com a IA “agêntica”, que interpreta objetivos e opera de forma autônoma, a questão muda. O foco deixa de ser apenas “quem” está acessando e passa a ser “o que” essa identidade está fazendo. Um agente de IA legítimo pode ser manipulado por um prompt malicioso ou simplesmente extrapolar seus limites operacionais, criando um novo tipo de ameaça interna que não é humana nem intencionalmente maliciosa.

O fim da confiança na identidade

O paradigma de Zero Trust foi uma resposta à dissolução dos perímetros de rede, tratando cada acesso como uma potencial ameaça a ser verificada. Ele resolveu o problema da autenticação em um mundo distribuído. Agora, a IA autônoma introduz um ator que possui credenciais válidas — o passaporte, na analogia de Eder Souza, CTSO da e-Safer — mas cujo comportamento pós-autenticação é imprevisível. O desafio não é mais barrar o intruso na porta, mas monitorar o convidado legítimo que pode, subitamente, agir de forma errática.

Esta nova classe de risco se soma às ameaças externas e aos insiders mal-intencionados. Um agente de IA, projetado para otimizar a logística, pode interpretar um comando de forma equivocada e começar a liquidar estoques ou alterar pedidos em massa. A identidade está correta, as credenciais são válidas, mas a ação é desastrosa. A segurança baseada apenas em identidade se torna cega para esse tipo de desvio comportamental.

APIs como o novo campo de batalha

Enquanto os modelos de IA tomam as decisões, são as APIs (Interfaces de Programação de Aplicações) que executam as ordens no mundo real: movimentam recursos, acessam dados sensíveis e integram sistemas. Elas são as “mãos” dos agentes autônomos, tornando-se o ponto crítico de controle e monitoramento. Proteger o ecossistema de APIs passa a ser estratégico para conter os riscos da autonomia da IA.

O cenário é agravado pelo fenômeno do “Shadow Agentic AI”, onde áreas de negócio implementam suas próprias automações com IA sem o conhecimento das equipes de TI. Essas iniciativas criam identidades digitais não mapeadas, com acesso a sistemas críticos, ampliando a superfície de ataque de forma silenciosa e descentralizada.

O Zero Trust não morre, mas se torna a camada fundamental sobre a qual uma nova estrutura deve ser construída. A segurança precisará evoluir para um modelo que avalia contexto e comportamento em tempo real, respondendo a perguntas como: esta ação é compatível com a missão do agente? O volume de dados acessado é normal? A confiança, antes depositada na identidade, agora precisará ser verificada a cada passo da operação.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · TIInside