O Brasil tem um plano para alavancar sua matriz energética limpa como motor de uma nova onda de industrialização. A tese, defendida por José Gordon, Diretor de Desenvolvimento Produtivo e Inovação do BNDES, é usar a energia renovável abundante e de baixo custo não apenas como um produto de exportação, mas como um ativo estratégico para atrair indústrias de alto valor agregado. A visão foi detalhada em um podcast da MIT Technology Review Brasil.
A estratégia centraliza-se no conceito de “power sharing”, ou compartilhamento de energia. A leitura é que, em um mundo que busca a descarbonização, o Brasil pode oferecer energia limpa e barata como uma moeda de troca para atrair investimentos em setores como veículos elétricos, pesquisa e desenvolvimento, inteligência artificial e o setor farmacêutico. Em vez de simplesmente vender energia, o país a usaria para negociar a instalação de plantas produtivas e centros de P&D em seu território.
A nova moeda de troca
Na prática, essa política se materializa em ações concretas. Gordon citou como exemplo a exigência de conteúdo local em leilões para sistemas de armazenamento de energia em baterias (BESS), garantindo que a demanda por infraestrutura de energia também fomente uma indústria nacional. O mesmo racional se aplica ao setor automotivo, com o uso de biocombustíveis para fortalecer a cadeia produtiva local, e à mineração, buscando agregar valor a minerais críticos em vez de exportá-los como matéria-prima bruta.
O BNDES, que se posiciona como o maior financiador de energia renovável do mundo, é a peça-chave para executar essa visão. O banco já atua em diversas frentes, como o Fundo Clima, o financiamento da primeira fábrica de baterias do Brasil e o suporte a projetos de etanol com pegada de carbono negativa. As agendas estratégicas para os próximos anos miram combustíveis sustentáveis de aviação (SAF), combustíveis para o setor marítimo e o desenvolvimento de data centers verdes, que demandam enorme quantidade de energia.
O sucesso da empreitada, no entanto, depende de um fator que transcende o capital: a continuidade. A consolidação do Brasil como uma potência industrial sustentável exige uma política de longo prazo, coesa e capaz de atravessar diferentes ciclos de governo, transformando um potencial evidente em vantagem competitiva duradoura.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · MIT Tech Review Brasil





