Quase toda tentativa de resolver a crise de moradia nos Estados Unidos esbarra na mesma lei de ferro da política local: “não no meu quintal”. A dinâmica é conhecida. Uma construtora propõe um novo edifício. Imediatamente, os moradores atuais se mobilizam, alegando que o projeto vai descaracterizar o bairro, aumentar o tráfego e derrubar o valor de seus imóveis. Os maiores beneficiários — futuros residentes — ainda não moram ali e, portanto, não têm voz. É uma assimetria política quase intransponível.
Depois de anos de tentativas frustradas de contornar esse impasse com leis estaduais e lobby, uma solução mais crua e pragmática começa a ser discutida em Washington. Segundo uma reportagem da revista The Atlantic, diversos think tanks e economistas estão convergindo em uma tese provocadora: se não é possível vencer os NIMBYs, talvez seja hora de pagá-los. A ideia é simples: se uma comunidade aprova novas moradias, cada residente recebe um cheque do governo. A aposta é que o dinheiro vivo pode transformar oponentes ferrenhos em defensores do desenvolvimento.
A calculadora do quintal
A proposta pode soar cínica, mas é respaldada por dados. Um estudo ainda não publicado dos economistas Edward Glaeser, Joseph Gyourko, Morris Davis e do cientista político Michael Hankinson mapeou o “preço da aceitação”. Em uma pesquisa com 1.700 moradores de áreas nobres, eles descobriram que mais de 80% dos entrevistados aceitariam um novo projeto imobiliário em troca de algum valor. A quantia, no entanto, varia drasticamente. Em bairros de alta densidade, como centros urbanos verticalizados, algumas centenas de dólares eram suficientes. Em muitos casos, o apoio vinha sem qualquer pagamento.
O cenário muda em áreas de densidade média, onde o valor sobe para a casa dos milhares de dólares. Nos subúrbios de baixa densidade, repletos de casas unifamiliares, o preço para convencer o morador mediano a dizer “sim” ultrapassa os US$ 5 mil. O tipo de projeto também influencia o cálculo: um prédio vizinho ao imóvel do morador dobra o valor exigido; um projeto mais denso que o entorno quadruplica; e uma construção destinada exclusivamente a moradias de baixa renda quintuplica a quantia necessária. A conclusão é que o dinheiro pode, de fato, comprar apoio político, mas o custo depende do que exatamente se está pedindo para o morador engolir.
Dinheiro na mão ou parque na esquina?
A estratégia de pagamento direto aos cidadãos contrasta com a abordagem atual, que foca em incentivos para governos locais. Leis recentes nos EUA oferecem verbas federais para cidades que atingem metas de construção, que podem ser usadas em parques ou infraestrutura. A pesquisa de Hankinson e seus colegas, contudo, sugere que essa tática é muito menos eficiente. Eles descobriram que, quando a compensação era oferecida na forma de um fundo para melhorias no bairro, os moradores exigiam dez vezes mais dinheiro do que quando o pagamento era feito diretamente em suas contas.
Isso não significa que a solução seja uma bala de prata. Nos subúrbios mais ricos, mesmo a oferta máxima do estudo, de US$ 9 mil, não foi suficiente para virar o jogo. A mensagem implícita é que, para uma parcela da população, a preservação do status quo não tem preço. Além disso, a proposta de “subornar” vizinhos para destravar o mercado imobiliário carrega um peso político e ético que ainda não foi testado nas urnas. A tese é que se está criando um novo eleitorado pró-desenvolvimento, mas o risco é legitimar a ideia de que o interesse público pode ser leiloado.
Por mais de uma década, ativistas e formuladores de políticas tentaram apelar para a razão e o bem comum para combater o egoísmo paroquial dos NIMBYs. Argumentaram sobre os benefícios econômicos, lotaram audiências públicas e mudaram leis. Nada disso resolveu de forma estrutural a escassez de moradia. Talvez o próximo capítulo dessa história seja menos sobre mudar mentalidades e mais sobre tornar o desenvolvimento um bom negócio para quem já está lá.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · The Atlantic — Ideas




