Por trás dos movimentos assustadoramente realistas de criaturas como King Kong e Godzilla na tela grande, há uma base de matemática e física computacional rigorosa. O responsável por essa ponte entre a ciência e a arte é Jernej Barbič, um professor de ciência da computação na University of Southern California que acaba de receber um Oscar técnico por seu trabalho.

O prêmio reconhece o Ziva VFX, um sistema de software que permite a criação de simulações ultrarrealistas de músculos, gordura e pele para humanos e criaturas digitais. A tecnologia nasceu de uma startup que Barbič cofundou, a Ziva Dynamics, adquirida pela gigante de games e ferramentas de criação Unity em 2021. O movimento validou a tese de que algoritmos complexos, antes restritos a laboratórios de pesquisa, possuem um imenso valor comercial quando transformados em ferramentas práticas para a indústria criativa.

Da Academia para a Tela Grande

A carreira de Barbič é um estudo de caso sobre a transferência de conhecimento. Sua pesquisa de doutorado na Carnegie Mellon focava em métodos de simulação para "objetos deformáveis" — um campo abstrato que ele soube traduzir para uma necessidade concreta de Hollywood. Segundo reportagem da IEEE Spectrum, ele sempre se interessou pela ponte entre "belos algoritmos" e sistemas que artistas e equipes de produção pudessem de fato utilizar.

Antes do Ziva VFX, ele desenvolveu um software de código aberto, o Vega FEM, que já explorava a animação de objetos 3D deformáveis. A experiência demonstrou o potencial, mas também as limitações de uma ferramenta puramente acadêmica. A criação da Ziva Dynamics foi o passo seguinte e decisivo: refinar a tecnologia para as demandas de estúdios que trabalham com orçamentos milionários e prazos apertados, culminando em seu uso em mais de 60 produções, incluindo blockbusters como Aquaman e Venom.

A Engenharia da Imaginação

A trajetória de Barbič não começou nos corredores de Hollywood, mas em uma vila nos alpes da Eslovênia. A inspiração para replicar o movimento — como o de árvores balançando ao vento — veio da infância. O interesse por engenharia foi herdado do pai, e a introdução à computação veio da mãe, que o deixou programar seu primeiro jogo em um computador ZX Spectrum aos oito anos.

Essa jornada, que vai da programação em BASIC à simulação de tecidos biológicos, ilustra uma verdade fundamental da inovação contemporânea: a tecnologia mais sofisticada é, muitas vezes, uma ferramenta a serviço da narrativa. A aquisição pela Unity sugere a próxima fase dessa evolução, na qual simulações de alta fidelidade, antes exclusivas do cinema de ponta, podem se tornar mais acessíveis a um universo maior de criadores de jogos e experiências imersivas.

O Oscar técnico para o Ziva VFX não celebra apenas um software, mas uma filosofia. Ele reconhece que a matemática e a física, quando bem aplicadas, não são apenas disciplinas científicas, mas instrumentos essenciais para contar as histórias que cativam a cultura popular. Os personagens digitais, viabilizados por esses cálculos, tornam-se, como diz Barbič, "partes importantes da vida das pessoas".

Com reportagem de Brazil Valley

Source · IEEE Spectrum