Um relatório de referência da National Academies of Science dos Estados Unidos, divulgado na semana passada, trouxe uma conclusão contundente: o programa de fomento a tecnologias de energia de alto risco do governo, conhecido como ARPA-E, está funcionando. Nos últimos 15 anos, a agência investiu mais de US$ 4 bilhões em projetos de universidades e startups, gerando mais de US$ 20 bilhões em financiamento privado subsequente e mais de 1.400 patentes.
Criada em 2009, a Advanced Research Projects Agency–Energy foi desenhada para resolver um problema crônico do ecossistema de inovação: o chamado “vale da morte”. Trata-se do abismo entre a pesquisa experimental e a escala comercial, onde muitas tecnologias promissoras morrem por falta de capital paciente. A tese aqui é que, para desafios complexos como a transição energética, o capital de risco tradicional não é suficiente, e o Estado assume um papel indispensável como catalisador. Segundo reportagem da publicação Grist, o sucesso da ARPA-E oferece um manual sobre como fazer isso.
O Estado como capital de risco paciente
A lógica da ARPA-E é atuar onde o mercado não ousa ir. Projetos de 'deep tech' climática, como novas químicas para baterias ou reatores nucleares de pequena escala, podem levar uma década ou mais para gerar lucro. Para um fundo de venture capital com um ciclo de vida de dez anos, a conta simplesmente não fecha. O programa funciona como um selo de validação e uma fonte de capital inicial que mitiga o risco para investidores privados entrarem em fases posteriores. O relatório aponta que projetos financiados pela agência tiveram uma probabilidade muito maior de obter patentes e investimentos adicionais.
Os resultados são tangíveis. A Fervo, uma empresa de energia geotérmica que recebeu apoio da ARPA-E em 2019, abriu capital este ano e já firma contratos com o Google para alimentar data centers. Outros casos de sucesso incluem a Form Energy, que desenvolve baterias de ferro-ar para armazenamento de longa duração, e a X-energy, que constrói pequenos reatores nucleares modulares. Essas não são otimizações incrementais; são tecnologias de base que podem redesenhar a matriz energética.
A nova fronteira e o paradoxo político
Com o sucesso do modelo, o relatório recomenda que a ARPA-E mude seu foco. Se no início os grants foram cruciais para baratear painéis solares e baterias de lítio — tecnologias hoje maduras, em parte graças à escala de produção chinesa —, o capital agora deve ser direcionado para os problemas mais difíceis. A nova fronteira inclui fusão nuclear, armazenamento de energia sazonal e métodos de produção de aço e cimento com zero emissão de carbono.
O mais curioso é o paradoxo político. A administração Trump, que já tentou extinguir o programa, agora o enquadra em sua agenda de “dominância energética americana”, segundo um comunicado do Departamento de Energia. Embora proponha cortes orçamentários, o governo continua a distribuir grants para tecnologias experimentais. A leitura é que o valor estratégico da ARPA-E para a competitividade nacional se tornou evidente demais para ser ignorado, mesmo por uma gestão cética em relação à pauta climática.
O sucesso da ARPA-E, portanto, transcende a discussão sobre o clima. Ele se torna um estudo de caso sobre política industrial para o século 21, demonstrando que o investimento público em inovação de alto risco não apenas é viável, mas pode ser o motor que destrava o dinamismo do setor privado para resolver os problemas mais intratáveis da nossa era.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Grist





