Num ensaio para a publicação literária Lit Hub, a escritora M. Leona Godin, que é cega, relata uma experiência ao mesmo tempo trivial e profunda: usar um aplicativo de inteligência artificial para descrever o quarto onde estava. A máquina detalhou com precisão um cobertor estampado e uma cortina, mas foi sua capacidade de descrever um símbolo Om que despertou uma reflexão mais ampla sobre a natureza da visão, da linguagem e da tecnologia.

O episódio, narrado por Godin, serve de ponto de partida para uma tese provocadora. O que começou como uma ferramenta de acessibilidade — o texto alternativo (alt text) que descreve imagens para deficientes visuais — está se revelando um campo fértil para a prática literária. A discussão transcende a utilidade técnica da IA e questiona como a tecnologia, ao tentar traduzir o mundo visual em palavras, nos força a repensar o que significa ver e descrever.

A tradução entre sentidos

A descrição de uma imagem nunca é um ato neutro. Godin ilustra essa premissa ao analisar a icônica fotografia “Blind Woman” (1916), de Paul Strand. Ela pediu a pessoas diferentes que descrevessem a imagem. Seu parceiro, Alabaster, viu no rosto da mulher “um leve franzir com um toque de raiva e anseio”. Já a artista Finnegan Shannon encontrou um rosto “relaxado”, sem uma emoção particular. A IA, por sua vez, teria se concentrado nos elementos factuais: o lenço, o sinal com a palavra “BLIND” pendurado no pescoço.

Essa multiplicidade de leituras expõe a falácia da descrição objetiva. Como observou o crítico John Berger, “toda imagem encarna um modo de ver”. O ato de descrever verbalmente força esse modo de ver a se revelar. O texto de Godin sugere que a IA, com sua abordagem literal e por vezes desajeitada, funciona como um catalisador. Ela oferece um rascunho, uma base factual que convida o ser humano a corrigir, aprimorar e, mais importante, interpretar. A tecnologia não substitui o olhar, mas o provoca, expondo as camadas de subjetividade, preconceito e contexto histórico que cada pessoa carrega.

Do técnico ao poético

Paradoxalmente, o mundo digital, que tanto depende do visual, costuma negligenciar essa ponte linguística. Godin critica a ausência frequente de alt text em newsletters e posts de redes sociais, um ato de exclusão que é também uma oportunidade criativa desperdiçada. A ironia, como ela aponta, é que a capa de seu próprio livro, “There Plant Eyes”, foi premiada por um design que ela ajudou a conceber, mas que só pode apreciar através de descrições.

O movimento que emerge dessa tensão é o de tratar a descrição de imagens como uma forma de arte em si. Godin menciona workshops como “Alt Text as Poetry” (Alt Text como Poesia), que incentivam abordagens experimentais e poéticas. A meta não é a precisão absoluta — o “acertar” a descrição —, mas abrir a imagem para múltiplos significados. Nesse cenário, a IA pode ser uma ferramenta inesperada: sua audácia em descrever o óbvio pode quebrar o bloqueio de escritores e criadores, incentivando-os a ir além da superfície.

O debate sobre IA e criatividade costuma ser enquadrado por uma lógica de substituição. A experiência de Godin, no entanto, aponta para um modelo de colaboração, onde a máquina atua como uma prótese que expande a percepção humana. A descrição de uma imagem não é uma mera compensação pela falta da visão, mas um ato de tradução que, como toda tradução, perde algo, mas também ganha. Ganha em tempo, em atenção e, sobretudo, na conversação que gera. A imagem final não é a que está na tela, mas aquela que se constrói coletivamente, palavra por palavra.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Lit Hub