Enquanto o debate público sobre inteligência artificial foca em produtividade e regulação, uma revolução silenciosa acontece nos bolsos e quartos de milhões de adolescentes. Eles estão recorrendo a chatbots não apenas para fazer a lição de casa, mas como confidentes para seus medos, dúvidas sobre saúde e angústias emocionais — e, na maioria das vezes, não contam a nenhum adulto.

Uma análise do portal GeekWire, que compilou dados de diversas pesquisas de institutos como RAND Corporation, Ofcom e Pew Research, pinta um retrato de uma geração que encontrou na IA um interlocutor sempre disponível, que não julga e nunca se cansa. A leitura é que, para além da conveniência, os chatbots estão preenchendo um vácuo de comunicação e confiança, operando como um terceiro elemento na dinâmica familiar e escolar, com implicações profundas e ainda pouco compreendidas.

O terapeuta no bolso

O uso mais revelador da IA por jovens não é para otimizar tarefas, mas para gerenciar o mundo interior. Um estudo da RAND Corporation aponta que quase um em cada cinco jovens americanos entre 12 e 21 anos já pediu ajuda a um chatbot ao se sentir triste, nervoso ou com raiva. O dado mais contundente: 63% deles não contaram a ninguém. A razão é uma mistura de pragmatismo e receio. Como um adolescente explicou a pesquisadores, o sigilo é uma estratégia para evitar que os pais, por medo, proíbam o uso da ferramenta.

A tendência é mais acentuada entre os mais vulneráveis. Crianças com condições de saúde que exigem acompanhamento profissional são quase três vezes mais propensas a usar bots de companhia como Character.AI ou Replika. Para elas, a IA não é apenas uma ferramenta, mas um amigo. O apelo é claro: a máquina oferece um espaço seguro onde o usuário é “sempre interessante” e “sempre emocionalmente justificado”, como descreveu um jovem de 18 anos. Esse refúgio digital, no entanto, cria um ponto cego para pais e profissionais de saúde, que perdem a visibilidade sobre crises e necessidades de apoio.

A sala de aula paralela

No ambiente escolar, a IA generativa estabeleceu uma realidade dupla. De um lado, a preocupação com a perda do pensamento crítico é real e mensurável. O mesmo estudo da RAND viu a percepção de que a IA prejudica essa habilidade subir de 54% para 67% em poucos meses. Um caso relatado pelo jornal Concord Monitor sobre um aluno de história avançada que, usando IA, não sabia que a Declaração de Independência dos EUA era parte da história americana ilustra o risco de uma terceirização cognitiva radical.

Por outro lado, a tecnologia funciona como um “tutor particular” para quem não pode pagar por um, nivelando o acesso ao suporte educacional. Reconhecendo que a proibição é ineficaz — 84% dos estudantes de ensino médio nos EUA já usam IA para trabalhos escolares —, algumas startups, como a Maximal Learning, fundada por veteranos da Microsoft, estão criando ferramentas que ensinam o aluno a pensar e a se organizar, em vez de simplesmente entregar a resposta. A iniciativa mais notável, talvez, venha dos próprios alunos. Em diversas escolas, são eles que estão propondo as regras de uso ético, preenchendo a lacuna deixada por distritos escolares que, em sua maioria, ainda não têm políticas claras sobre o tema.

O fato é que a recomendação de “simplesmente parar de usar” soa ingênua. A realidade é que 61% dos jovens dizem que seus pais raramente ou nunca conversam com eles sobre IA, e 53% dizem o mesmo sobre seus professores. A questão não é se os adolescentes usarão a tecnologia, mas como. Enquanto os adultos debatem em conferências, a geração Z já está em uma conversa íntima e contínua com seus confidentes digitais. Ignorar essa conversa não a fará desaparecer; apenas garante que os adultos não farão parte dela.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · GeekWire