Manuel Marín Navarro trabalha ao som de música do século XVII. Em seu estúdio, cercado por mais de quatro mil livros, ele se dedica a uma tarefa que ele mesmo define como “uma loucura”: reescrever, letra por letra, a íntegra de “O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de la Mancha”.
Há mais de seis anos, ele dedica de sete a oito horas diárias ao projeto. O resultado é um manuscrito em caligrafia gótica que já ultrapassa 1.300 páginas em formato A3 e caminha para pesar 20 quilos. A obra, batizada de “El Quixote Axárquico”, é um tributo à sua região natal na Andaluzia e à primeira edição do livro, de 1605.
O Valor do Tempo
Quando Navarro estima o valor de sua obra em um milhão de euros, ele não fala de valor de mercado, mas de custo de oportunidade. O cálculo, segundo reportagem do site espanhol Xataka, é uma “aritmética laboral”: a soma das horas de um artesão que, como um copista medieval, dedicou-se a um ofício solitário e anacrônico. Em um mundo onde a inteligência artificial gera textos e imagens em segundos, seu gesto é uma provocação sobre o que constitui “valor”. Não se trata da raridade do objeto, mas da raridade do tempo e da dedicação humana nele investidos.
O Ofício como Legado
O rigor é absoluto. As penas de metal e cana foram fabricadas pelo próprio professor. Erros não são apagados com corretivos modernos, mas raspados do papel com uma lâmina, técnica secular. A escolha da letra gótica Textura, a mesma da Bíblia de Gutenberg, confere um peso histórico que transcende a Espanha do Século de Ouro. O projeto não é um exercício de vaidade, mas um ato de preservação. Navarro pretende doar o manuscrito a um museu local, garantindo que o fruto de sua “loucura” se torne um artefato público, um testamento físico à devoção.
Ao final, o “Quixote Axárquico” será mais que um livro. Será um monumento ao trabalho manual, uma anomalia na era da eficiência digital. Resta saber se, em um futuro de produção infinita, ainda haverá espaço — e apreço — para uma loucura tão magnificamente humana.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Xataka




