Há exatas duas décadas, em uma votação histórica realizada em Praga, a União Astronômica Internacional (IAU) redefiniu o que constitui um planeta, e Plutão não passou no corte. A deliberação, ocorrida em 24 de agosto de 2006, removeu do astro o status que detinha desde sua descoberta em 1930.

O movimento rebaixou o então nono planeta do Sistema Solar à categoria de 'planeta anão', tornando-o o protótipo de uma nova classe de objetos transnetunianos. Vinte anos depois, a decisão ainda reverbera, opondo a necessidade de rigor taxonômico da ciência à forte conexão cultural que o público formou com o pequeno mundo gelado nos confins do nosso sistema.

Uma questão de vizinhança

A controvérsia reside no terceiro dos três critérios definidos pela IAU para que um corpo celeste seja considerado um planeta. Plutão cumpre os dois primeiros: orbita o Sol e possui massa suficiente para que sua própria gravidade o torne esférico. Contudo, falha no requisito final: ter 'limpado a vizinhança' ao redor de sua órbita.

Na prática, isso significa que um planeta deve ser o objeto gravitacionalmente dominante em seu caminho orbital. Plutão, por sua vez, compartilha sua trajetória com inúmeros outros corpos do Cinturão de Kuiper, uma vasta região de objetos gelados além de Netuno. A descoberta de outros mundos de tamanho similar, como Eris, forçou a mão da IAU: ou o Sistema Solar ganharia dezenas de novos planetas, ou a definição precisaria ser mais estrita. A entidade optou pela segunda via.

O apelo que não arrefece

A decisão nunca foi unânime e encontrou forte resistência, notavelmente de Alan Stern, principal investigador da missão New Horizons, da NASA. Lançada em 2005 para estudar o nono planeta, a sonda chegou a Plutão em 2015 para encontrar um corpo celeste que, oficialmente, já havia sido reclassificado. Para Stern e outros críticos, a definição da IAU é falha e não reflete a complexidade geológica de mundos como Plutão.

Apesar do forte apelo popular e de campanhas que pedem a 'promoção' de Plutão de volta ao status planetário, a comunidade científica majoritariamente sustenta a classificação de 2006. O argumento é que abrir uma exceção criaria um precedente insustentável, comprometendo a coerência na categorização de futuros objetos que venham a ser descobertos no Sistema Solar e além.

Duas décadas depois, a controvérsia sobre Plutão revela menos sobre o astro em si e mais sobre como a ciência opera: um processo contínuo de revisão e, por vezes, de decisões impopulares. O status de Plutão pode ter mudado nos livros didáticos, mas seu lugar no imaginário popular parece inabalado, garantindo que a discussão permaneça viva por muitos anos.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Canaltech