A News Corp, império de mídia de Rupert Murdoch, abriu uma nova frente de batalha na guerra pelo valor do conteúdo na era da inteligência artificial. Durante a divulgação de resultados da companhia, o CEO Robert Thomson lançou um ataque verbal contundente contra empresas de IA que treinam seus modelos com conteúdo jornalístico sem licenciamento, classificando-as como “cleptomaníacos grosseiros”.

O ataque verbal, no entanto, é apenas a face pública de uma estratégia de negócios deliberada, que Thomson batizou de “woo and sue” (algo como “seduzir e processar”). A lógica é clara: criar uma bifurcação no mercado. De um lado, parceiros “honrados” e “com princípios”, como OpenAI e Meta, que fecharam acordos financeiros para usar o acervo da News Corp. Do outro, os “ladrões” que serão alvo de litígios agressivos. O alvo nomeado foi o navegador Brave, acusado de “roubar descaradamente nosso conteúdo em escala”.

A criação de um mercado

A ofensiva da News Corp vai além da defesa da propriedade intelectual. É um movimento para estabelecer um mercado de dados de treinamento de alta qualidade. Ao alertar que, sem conteúdo profissional, os usuários estariam “se afogando em um mar viscoso de lixo de IA”, Thomson posiciona seu portfólio — que inclui The Wall Street Journal e The Times — como um insumo premium indispensável para qualquer LLM que se pretenda sério e confiável. A tese é que, em um mundo de “alucinações de IA”, a veracidade e a curadoria jornalística têm um preço.

Essa estratégia busca criar um precedente. Ao elogiar publicamente quem paga, a News Corp estabelece um padrão de conduta para o setor. A ameaça de processos, por sua vez, não se dirige apenas aos desenvolvedores de IA, mas também a seus clientes corporativos. Thomson foi explícito ao afirmar que essas empresas estão “evidentemente em posse de bens roubados”, elevando o risco legal para toda a cadeia e forçando uma decisão: pagar pelo acesso legítimo ou arriscar a exposição jurídica.

O paralelo com a indústria da música no início dos anos 2000 é inevitável. A batalha contra a pirataria, que pareceu perdida na era do Napster, acabou por pavimentar o caminho para os modelos de assinatura de hoje, como o Spotify. A News Corp aposta que, através da pressão legal e da oferta de parcerias, pode forçar uma transição semelhante para a economia da IA generativa. A guerra está longe de terminar; para a mídia tradicional, ela está apenas começando.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · The Register