Em um painel durante a Expert XP, evento da corretora em São Paulo, especialistas do mercado financeiro foram diretos ao ponto: o investidor brasileiro ainda opera com uma mentalidade excessivamente doméstica, uma estratégia que limita retornos e eleva os riscos de forma desnecessária. A discussão, que reuniu executivos da própria XP e do J.P. Morgan Asset Management, mirou no chamado 'home bias', a tendência de concentrar investimentos no país de origem.
A tese central é que essa concentração, muitas vezes justificada como uma postura conservadora, é na verdade uma aposta de alto risco. Ao se restringir a um mercado que representa uma fração do capital global, o investidor não apenas se expõe de forma desproporcional às volatilidades do Brasil, mas também abre mão de participar das principais frentes de criação de valor da economia mundial, notadamente em tecnologia e inovação.
A escala da miopia
Os números apresentados no debate ajudam a dimensionar o custo de oportunidade. Segundo Marina Valentini, estrategista de mercados globais no J.P. Morgan, o mercado de renda fixa americano é cerca de 20 vezes maior e 46 vezes mais líquido que o brasileiro. No universo de ações, a disparidade é ainda mais gritante: 130 vezes maior em tamanho e 40 vezes em liquidez. Essa diferença de escala se reflete na relevância: no índice MSCI ACWI, que agrega ações globais, as empresas brasileiras somam apenas 0,4% da composição total.
O problema não é apenas quantitativo. A composição do mercado global mudou. Se antes as maiores companhias eram conglomerados industriais, hoje o protagonismo é de gigantes de tecnologia como Apple, Nvidia e Amazon. A revolução da inteligência artificial, descrita por Valentini como um "bolo de 5 camadas" (energia, chips, nuvem, modelos e aplicativos), tem a maior parte de suas oportunidades fora do Brasil. O país, segundo ela, participa de forma relevante apenas na camada de energia, deixando de capturar valor nos segmentos mais estratégicos da cadeia.
Risco, retorno e a destruição criativa
Para Artur Wichmann, CIO da XP, a diversificação internacional não é apenas uma busca por mais oportunidades, mas uma ferramenta para melhorar a relação entre risco e retorno. A inclusão de ativos globais reduz a correlação com os riscos idiossincráticos do Brasil. Wichmann destacou a ironia da percepção de risco: enquanto o investidor local se vê como conservador, um observador externo poderia considerar a alocação de 100% do patrimônio em um país sem grau de investimento como uma atitude arrojada.
O CIO da XP recorreu ao conceito de "destruição criativa" de Schumpeter para explicar por que o mercado americano se mantém como uma máquina de geração de riqueza. Nos Estados Unidos, o capital é constantemente realocado de empresas menos eficientes para as que lideram novas ondas de crescimento, como as de IA. "No Brasil, a gente congela tudo, o capital não é reciclado", contrapôs, apontando uma diferença estrutural que impacta o potencial de retorno no longo prazo. A recomendação de uma alocação mínima de 15% no exterior surge como um ponto de partida, ajustável conforme os objetivos e passivos dolarizados de cada um.
O debate reforçou que as barreiras para investir fora já não são estruturais, mas comportamentais. A disciplina para manter aportes recorrentes, em vez de tentar acertar o momento do câmbio, foi apontada como o principal desafio. A mensagem final é que a internacionalização deixou de ser uma aposta tática para se tornar uma decisão estrutural de portfólio, essencial para quem busca crescimento e preservação de capital em um cenário globalizado.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





