Lonnie G. Bunch III, o primeiro afro-americano a liderar a Smithsonian Institution, anunciou sua aposentadoria para o fim do ano. A notícia, analisada em artigo do site Hyperallergic, vem após um mandato marcado por embates com a administração Trump, especialmente durante seu período como diretor-fundador do aclamado Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana.
Embora Bunch tenha afirmado ao Washington Post que a pressão política não influenciou sua decisão, sua saída é lida no meio cultural como um sintoma da crescente politização das instituições de memória nos Estados Unidos. O caso ilumina a batalha mais ampla sobre qual versão da história americana deve ser contada e por quem.
Dois historiadores, duas Américas
O Hyperallergic traça um paralelo contundente entre Bunch e Kevin D. Roberts. Ambos são historiadores com especialidade na experiência negra nas Américas. Bunch dedicou sua carreira a usar a pesquisa acadêmica para informar o público de forma crítica e rigorosa, culminando na criação de um museu que se tornou um marco. Roberts, por outro lado, hoje lidera a Heritage Foundation, um think tank ultraconservador, e é um dos arquitetos do “Project 2025”, que propõe uma revisão radical da estrutura governamental e cultural do país.
A trajetória de Roberts — de acadêmico que estudou a resistência de pessoas escravizadas a estrategista de um projeto visto como abertamente revisionista — é apresentada como um exemplo cínico da instrumentalização da história. A divergência entre as duas figuras não é apenas acadêmica; ela representa o epicentro da guerra cultural americana: a história como ferramenta de emancipação versus a história como arma ideológica.
A renúncia de Bunch, independentemente da motivação declarada, deixa um vácuo e serve de alerta. Quando o guardião de uma das mais importantes coleções sobre a história do país se retira em meio a um ambiente de assédio e revisionismo, a questão que fica não é apenas quem o substituirá, mas qual será a capacidade das instituições de resistir à próxima onda de pressão política.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Hyperallergic





