Um estudo da Federação Nacional de Associações de Trabalhadores Autônomos (ATA) da Espanha, divulgado pela Forbes local, colocou em números um custo que todo empreendedor conhece intimamente: o imposto do tempo. Profissionais autônomos no país dedicam, em média, 226 horas por ano apenas para cumprir obrigações fiscais e administrativas. O custo agregado dessa improdutividade forçada supera os €11,7 bilhões anuais.
O número representa um aumento em relação às 200 horas estimadas em dezembro, um sintoma, segundo a associação, da crescente complexidade regulatória – incluindo novas regras de faturamento e até o regulamento de Inteligência Artificial da União Europeia. A cifra de 226 horas equivale a quase seis semanas de trabalho de 40 horas, um tempo que não é investido em gerar receita, inovar ou atender clientes, mas em alimentar a máquina estatal.
A conta da complexidade
O cálculo da ATA é direto: com um custo médio estimado de €15 por hora, cada um dos 3,4 milhões de autônomos espanhóis arca com um custo pessoal de quase €3.400 anuais. Trata-se de um peso morto sobre a produtividade, um “sócio oculto” que não contribui com capital nem com trabalho, apenas drena recursos. Lorenzo Amor, presidente da ATA, foi taxativo: “A burocracia está afogando o coletivo. Passamos mais tempo com papéis e menos tempo gerando riqueza”.
A situação é ainda mais crítica para o quase um milhão de autônomos que também são empregadores, acumulando as obrigações de pessoa física e jurídica. A principal demanda do setor, apoiada por 40% dos entrevistados no barômetro da ATA, é uma reforma radical na frequência das declarações fiscais, passando do modelo trimestral para um semestral ou mesmo anual. É um apelo por simplicidade em um ambiente cada vez mais complexo.
O eco no Brasil
Embora os números sejam espanhóis, a análise serve como um espelho para a realidade brasileira. O conceito de “Custo Brasil” nada mais é do que a soma de ineficiências estruturais e complexidade regulatória que penalizam quem produz. A queixa dos autônomos espanhóis sobre o paradoxo da digitalização — onde novas ferramentas e regras digitais acabam por aumentar, e não diminuir, a carga de trabalho administrativo — certamente encontraria eco entre PJs e MEIs no Brasil.
O debate proposto na Espanha não é sobre a ausência de regras, mas sobre a inteligência delas. A colaboração da ATA com o governo para criar um canal digital de feedback é um passo. Contudo, a questão fundamental permanece: como desenhar um sistema que garanta a conformidade sem sufocar a atividade econômica? A resposta a essa pergunta define a fronteira entre um Estado que fomenta e um que obstrui a geração de valor.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Forbes España





