A Aena, maior gestora aeroportuária do mundo em número de passageiros, está traçando um dos mais ambiciosos planos de descarbonização do setor. A companhia espanhola pretende que 51% de todo o seu consumo energético venha de fonte solar fotovoltaica até 2029, com a meta de atingir emissões líquidas zero (net-zero) já em 2030. A iniciativa foi celebrada por membros do governo espanhol em visita ao parque fotovoltaico do aeroporto de Madrid-Barajas.

O movimento da Aena é mais do que uma declaração de intenções. Trata-se de uma tese de investimento na transição energética, utilizando seus próprios ativos — telhados, estacionamentos e terrenos — como base para a geração de energia limpa. Para um setor de difícil descarbonização como o aéreo, a estratégia sinaliza um caminho tangível que vai além da simples compra de créditos de carbono ou da espera por tecnologias futuras de combustível.

A infraestrutura como ativo verde

O plano da Aena, que já se estende por 12 aeroportos, representa uma integração vertical estratégica. Ao gerar a própria energia, a companhia ganha autonomia, reduz a exposição à volatilidade dos preços no mercado de energia e aumenta sua segurança operacional, um ponto destacado pelo governo espanhol em meio a um cenário geopolítico complexo. A leitura aqui é que a Aena está transformando um passivo de custo (energia) e um passivo de imagem (emissões) em um ativo estratégico e financeiro. O modelo serve de exemplo para outras concessionárias de infraestrutura, inclusive no Brasil, onde grandes aeroportos privados possuem vastas áreas com potencial para projetos similares, alinhando a agenda ESG com a eficiência operacional.

Além da operação em solo

O compromisso da Aena não se limita à energia que alimenta seus terminais. A companhia reconhece que o grande desafio da aviação está no ar, e por isso seu plano de ação climática também contempla o avanço de combustíveis sustentáveis de aviação (SAF, na sigla em inglês) e do hidrogênio renovável. O pano de fundo financeiro para essa visão é robusto: o governo espanhol espera aprovar em breve o DORA III, um plano que prevê investimentos de quase €13 bilhões na rede de aeroportos da Aena entre 2027 e 2031. O capital não visa apenas a expansão da capacidade, mas garante os recursos para consolidar essa transição.

Enquanto o SAF e o hidrogênio ainda dependem de escala e de reduções de custo para se tornarem viáveis, a eletrificação da infraestrutura de solo é uma ação concreta e imediata. A iniciativa da Aena estabelece um novo padrão para operadores aeroportuários em todo o mundo, pressionando o restante da cadeia de valor — de companhias aéreas a fornecedores de serviço — a acelerar seus próprios roteiros de descarbonização. A questão que fica é a velocidade com que este modelo pode ser replicado em escala global.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España