A transição para veículos elétricos na África pode acontecer mais rápido do que se imaginava, mas não pelos motivos óbvios. Uma nova análise, publicada no periódico científico Nature Energy, projeta que os carros elétricos podem atingir um custo total de propriedade inferior ao dos veículos a gasolina na maior parte do continente já em 2040. A estimativa é mais otimista que projeções anteriores, que apontavam para 2050.

A chave para essa aceleração não está em subsídios governamentais ou em uma súbita modernização da rede elétrica, mas em um modelo descentralizado: a recarga solar fora da rede (off-grid). A tese do artigo é que, embora a tecnologia esteja se tornando viável, o verdadeiro freio à adoção em massa não é a engenharia, mas a macroeconomia — especificamente, o alto custo do capital.

O fator solar e o custo total

O estudo, conduzido por pesquisadores do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique (ETH Zürich), se diferencia por focar no custo total de propriedade (TCO, na sigla em inglês) em vez de apenas no preço de compra. Essa métrica inclui o valor do veículo, os custos de financiamento e o gasto com energia ao longo de sua vida útil. A análise inova ao incorporar no cálculo o custo de um sistema de recarga solar doméstico, com painéis, baterias e inversores.

Essa abordagem contorna um dos maiores obstáculos do continente: redes elétricas pouco confiáveis ou inexistentes em vastas áreas. Ao tornar a recarga autônoma, a viabilidade econômica dos elétricos dispara. Veículos de duas rodas, como scooters, poderiam atingir a paridade de custo ainda nesta década. O modelo sugere que a eletrificação da mobilidade na África pode seguir um caminho de descentralização energética, um paralelo interessante para outras regiões com desafios de infraestrutura, incluindo áreas rurais do Brasil.

O paradoxo do financiamento

Ao isolar fatores econômicos fundamentais — excluindo impostos e subsídios —, o estudo revela que a barreira mais significativa é o acesso a financiamento barato. Em muitos países africanos, a instabilidade política e econômica eleva drasticamente as taxas de juros. Como os veículos elétricos ainda possuem um custo inicial mais alto, essa diferença é amplificada pelo financiamento caro, que em alguns casos pode até superar o valor do próprio carro.

A situação varia. Na África do Sul, em Maurício e em Botsuana, as condições financeiras já se aproximam do necessário para a paridade. Em contrapartida, em nações como Sudão e Gana, os custos de capital precisariam cair drasticamente. O cenário expõe um paradoxo: a tecnologia (baterias mais baratas e energia solar) está resolvendo a dimensão técnica do problema, mas a adoção em massa depende da saúde macroeconômica e da percepção de risco dos bancos locais.

A tendência global para a eletrificação é inequívoca, como aponta o estudo. A questão, no contexto africano, não é se a transição ocorrerá, mas a que velocidade. E a resposta parece estar menos nas mãos das montadoras e mais na política monetária e na estabilidade institucional que permitem o acesso a crédito acessível.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · MIT Tech Review Brasil