O Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2027, enviado pelo governo, projeta um superávit primário de R$ 18,6 bilhões, o equivalente a 0,13% do Produto Interno Bruto (PIB). O número, à primeira vista, sinaliza o cumprimento da meta fiscal estabelecida, mas uma análise mais atenta revela uma base frágil que preocupa o mercado.
A leitura é que o resultado positivo está na corda bamba. Segundo Gustavo Pedroso, sócio da gestora Cordier, em entrevista ao Money Times, o projeto cumpre a meta “raspando na banda do piso de tolerância”. A tese central é que o governo aposta em um cenário de arrecadação otimista para financiar o contínuo aumento dos gastos, adiando mais uma vez um ajuste estrutural nas despesas públicas.
A aposta na receita
O cerne da fragilidade do orçamento de 2027 reside na qualidade das receitas previstas. O governo conta com um crescimento robusto da arrecadação, incluindo fontes extraordinárias e voláteis, como leilões de petróleo, que já frustraram as expectativas em exercícios anteriores. A estratégia, portanto, não é de contenção, mas de crescimento da receita para sustentar a expansão da despesa.
Na prática, trata-se de uma aposta de que o crescimento econômico resolverá o desequilíbrio fiscal sozinho, uma premissa que muitos analistas consideram arriscada. Como aponta Pedroso, o plano “empurra o ajuste para depois”. Caso a economia performe abaixo do esperado ou as receitas não se concretizem, o caminho mais provável seria um contingenciamento de gastos ao longo do ano — ou, no pior cenário, a transformação do modesto superávit em um novo déficit fiscal.
Juros e credibilidade em jogo
O mercado financeiro parece compartilhar desse ceticismo. A percepção de risco fiscal elevado continua a pressionar os juros de longo prazo no Brasil, que se mantêm em patamares altos mesmo com os cortes na taxa Selic promovidos pelo Banco Central. Esse prêmio de risco embutido nos títulos públicos reflete a desconfiança sobre a sustentabilidade da trajetória da dívida.
A dinâmica cria um impasse. Enquanto a política monetária tenta estimular a atividade econômica, a incerteza fiscal atua como um freio, encarecendo o crédito e inibindo investimentos. A falta de um plano crível para o lado da despesa deixa o governo dependente de um cenário macroeconômico favorável que está longe de ser garantido.
O orçamento de 2027, portanto, se apresenta menos como uma solução e mais como um paliativo que adia decisões difíceis. A questão que permanece no ar não é se as projeções de receita serão desafiadas, mas qual será a magnitude da frustração e a resposta do governo quando a conta chegar.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times





