Em 2007, um animal de meio milímetro sobreviveu a dez dias exposto diretamente ao vácuo do espaço. A bordo da missão Foton-M3, da Agência Espacial Europeia (ESA), espécimes de tardígrados foram levados à órbita baixa da Terra, a 270 quilômetros de altitude, e submetidos a um teste brutal. O feito, que alimentou a fama de 'indestrutível' da criatura, foi documentado em um estudo publicado na revista Current Biology no ano seguinte.

O que permitiu essa sobrevivência não foi uma superpotência biológica, mas um estado de animação suspensa conhecido como criptobiose. Antes do lançamento, os animais foram desidratados, ativando um mecanismo que reduz seu metabolismo a níveis quase nulos. A análise dos resultados, no entanto, revela uma história mais complexa: a de uma resiliência notável, mas com um ponto fraco bem definido.

O truque do vidro biológico

A criptobiose é uma proeza da bioquímica. Ao secar, o tardígrado substitui a água de suas células por um açúcar chamado trealose. Essa substância forma uma matriz vítrea, quase um 'vidro biológico', que imobiliza e protege proteínas e membranas celulares, impedindo que se desintegrem na ausência de água. O animal encolhe, recolhe as patas e se transforma em uma partícula seca chamada 'tun'.

Nesse estado, ele pode resistir não apenas à desidratação, mas também a temperaturas extremas e à falta de oxigênio por longos períodos. O processo é reversível: basta uma gota de água para que o animal reidrate e retome suas funções vitais em poucas horas. É essa capacidade que permite que tardígrados sejam encontrados em ambientes mundanos, como musgos em telhados, que alternam entre umidade e secura.

Herói com ponto fraco

O experimento da ESA foi crucial para demonstrar os limites dessa resistência. Um grupo de tardígrados foi exposto apenas ao vácuo, protegido da radiação. Quase todos sobreviveram, com desempenho similar ao grupo de controle na Terra. Um segundo grupo, porém, enfrentou o vácuo combinado com a radiação ultravioleta solar direta, sem filtros.

O resultado foi drástico: a taxa de sobrevivência despencou, e apenas uma pequena fração dos animais resistiu. A conclusão é que, embora o estado de 'tun' proteja contra o vácuo, ele oferece pouca defesa contra os danos que a radiação solar direta causa ao DNA. Fora da criptobiose, em seu estado ativo e hidratado, o tardígrado é tão frágil quanto qualquer outro microanimal.

A fama de indestrutível, portanto, é uma simplificação. A história do tardígrado no espaço não é sobre invencibilidade, mas sobre uma estratégia de sobrevivência altamente especializada, cujas fronteiras a ciência ainda está mapeando. Entender esses limites é fundamental para a astrobiologia e para o desenvolvimento de tecnologias de biopreservação.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Olhar Digital