O governo federal tenta se antecipar à narrativa de que uma eventual guerra comercial com os Estados Unidos poderia render frutos políticos internamente. Em entrevista à Bandnews, o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Márcio Elias Rosa, foi taxativo: um 'tarifaço' americano “é ruim para todo mundo” e não traz qualquer benefício eleitoral.

A declaração é um movimento calculado para blindar o Palácio do Planalto de duas críticas potenciais: a de que a retórica do presidente Lula contra Donald Trump teria provocado a animosidade, e a tese, atribuída pelo ministro a opositores, de que o governo se beneficiaria de um confronto com Washington. Para o MDIC, o problema é estrutural, não pessoal.

A defesa preventiva

Ao afirmar que “comete um grave equívoco quem supõe que o lado brasileiro imagina que eleitoralmente ou politicamente (...) o governo se beneficia”, Elias Rosa busca desarmar a oposição. A estratégia é enquadrar a tensão comercial não como um fracasso diplomático do governo atual, mas como uma ameaça externa que exige união nacional. A fala posiciona o governo como um gestor pragmático diante de um cenário adverso, e não como um incendiário.

Essa linha argumentativa tenta esvaziar o discurso de que uma simples mudança de governo no Brasil apaziguaria as relações. Segundo o ministro, a pressão comercial americana, motivada por uma política interna de reindustrialização, continuaria independentemente de quem estivesse no poder em Brasília. É uma tentativa de nacionalizar o problema, retirando-o do campo da disputa partidária.

O fator estrutural

O ponto central do argumento do ministro é que as causas da fricção são mais profundas do que declarações presidenciais. A política protecionista dos EUA para fortalecer sua própria base industrial é o verdadeiro motor do conflito, uma tendência que transcende a relação pessoal entre líderes. Se o problema fosse apenas a retórica de Lula, argumenta Elias Rosa, seria “de fácil resolução”.

Essa análise desloca o eixo do debate. Em vez de focar na gestão diplomática do governo, o ministro convida a uma reflexão sobre as novas regras do comércio global, onde o protecionismo retorna com força. Nessa visão, o Brasil é mais um alvo da nova doutrina econômica americana do que o protagonista de uma crise específica.

Com uma nova decisão dos EUA sobre investigações comerciais aguardada para os próximos dias, a tese do governo será testada. A questão é se a diplomacia brasileira conseguirá navegar nesse cenário estruturalmente mais complexo ou se a narrativa de falha pessoal e ideológica prevalecerá no debate doméstico.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times