A arquitetura vitoriana é, por natureza, uma declaração pública. Suas fachadas ornamentadas e a prioridade na “curb appeal” — a atratividade vista da rua — definiram a construção de uma era. Um projeto recente do estúdio Mosley Thorold em Londres, no entanto, propõe uma inversão dessa lógica. Na renovação da De Beauvoir Townhouse, a casa se volta para dentro, fazendo do jardim o seu evento principal, e não um vislumbre acidental pelas janelas dos fundos.

A proposta, segundo reportagem da publicação de design e arquitetura Dezeen, foi repensar a residência de dois andares para que ela respirasse para seu próprio terreno. O gesto fundamental foi deslocar a escada para os fundos, permitindo que ela fosse banhada pela luz de uma janela de pé-direito duplo, e reorganizar o fluxo em direção a uma nova e generosa extensão que abriga a cozinha e a sala de jantar.

A celebração da pátina

A filosofia do projeto reside na escolha dos materiais. Em vez de acabamentos polidos e imutáveis, o estúdio optou por uma paleta tátil e viva: concreto aparente, tijolos recuperados, azulejos de cimento reciclados e esquadrias de metal destinadas a envelhecer. A estrutura de aço que sustenta a extensão, pintada em um tom de marrom avermelhado, emoldura o espaço sem sobrecarregar as paredes originais.

A ideia, nas palavras do cofundador Nathan Mosley, era usar “materiais que desenvolvem uma pátina em vez de simplesmente se desgastarem”. É uma busca por uma qualidade que convida ao toque e que dialoga com a passagem do tempo. Essa paleta se estende aos andares superiores, com paredes em tons terrosos, pisos de madeira escura e pias de concreto, criando uma coesão sensorial em toda a casa.

O espírito do ofício

Mosley traça um paralelo entre essa abordagem e o espírito da construção vitoriana original, que celebrava o trabalho manual e o potencial dos materiais. “Acho que o design contemporâneo pode carregar o mesmo espírito, mesmo que as ferramentas tenham mudado inteiramente”, afirmou à Dezeen. Essa conexão entre o antigo e o novo se materializa na forma como a casa foi pensada para ser vivida.

A extensão se abre para o jardim através de portas dobráveis feitas de venezianas recuperadas, dissolvendo a fronteira entre interior e exterior. O jardim, desenhado por Sophie Gordon, complementa a visão com uma piscina natural e uma sauna revestida de pedra bruta e madeira escura. Mais do que uma reforma, o projeto é um manifesto sobre como uma casa pode envelhecer com graça, acumulando histórias em sua superfície.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Dezeen