Em um momento de alta voltagem política no Ocidente, a análise de dados torna-se um porto seguro para decifrar a instabilidade. É nesse contexto que Narciso Michavila, fundador da consultoria de pesquisa espanhola GAD3, se prepara para debater o cenário na Espanha, Estados Unidos e França, na esteira de um calendário eleitoral denso e desafiador.

A discussão, que ocorrerá em um evento da Forbes, coloca em foco não apenas os países, mas o perfil do analista. Michavila representa a crescente demanda por uma leitura técnica e quantitativa da política, em um esforço para transformar a imprevisibilidade das urnas em cenários de risco calculáveis.

Do quartel às urnas

O perfil de Michavila é, em si, uma narrativa sobre a tecnocracia contemporânea. Com um doutorado em Ciências Políticas e mestre em Estatística, ele é também comandante de Artilharia na reserva, com passagens como analista no Instituto Espanhol de Estudos Estratégicos e como porta-voz da Otan em Kosovo. Essa transição do campo militar para a pesquisa sociológica não é trivial.

A fundação da GAD3, hoje uma das principais referências em pesquisas eleitorais na Espanha, marca a aplicação de uma lógica de análise estratégica, antes restrita à defesa, ao volátil campo da opinião pública. A busca por seus insights reflete um mercado que valoriza a disciplina dos dados para navegar a complexidade social, em detrimento de análises puramente ideológicas.

Um Ocidente em xeque

Os três países no centro do debate — Espanha, França e EUA — compartilham um roteiro de polarização, fragmentação partidária e desafios à ordem liberal. De Madri a Washington, passando por Paris, as próximas eleições são vistas como testes de estresse para democracias consolidadas. A análise de Michavila, portanto, interessa não apenas a políticos, mas a investidores e executivos que precisam precificar o risco geopolítico em suas operações.

O trabalho de consultorias como a GAD3 se insere precisamente nesta intersecção entre política e capital. Ao quantificar tendências e humores sociais, elas oferecem uma linguagem comum — a dos números — para que o mercado possa interpretar e reagir a um ambiente político cada vez mais refratário a modelos antigos. A questão é entender os limites e as possibilidades dessa abordagem.

A busca por um oráculo de dados que possa antecipar os humores de sociedades fraturadas é uma das marcas de nosso tempo. A análise de Michavila é menos uma previsão e mais um sintoma dessa busca incessante por previsibilidade em um mundo que parece ter perdido o roteiro.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España