O governo da Espanha deu um passo pragmático para garantir sua autonomia em recursos estratégicos. O Ministério para a Transição Ecológica anunciou a reserva de quatro áreas na região da Andaluzia, ricas em resíduos de atividades de mineração históricas, para investigar a presença e a viabilidade de extração de minerais críticos. A medida foi oficializada no Boletim Oficial do Estado (BOE), o diário oficial do país.

A iniciativa se insere em um contexto de crescente preocupação geopolítica na Europa com a dependência de matérias-primas essenciais para as transições digital e energética. Em vez de focar apenas na exploração de novas jazidas, a Espanha aposta em uma forma de “mineração circular”: reprocessar o que antes era considerado passivo ambiental para recuperar metais valiosos. A tese é que o futuro da soberania de recursos pode estar, literalmente, enterrado no lixo do passado.

Soberania a partir de passivos

O projeto faz parte do Programa Nacional de Exploração Mineira 2026-2030 (PNEM) e será conduzido por entidades estatais, o Instituto Geológico e Mineiro (IGME-CSIC) e o grupo Hunosa, uma empresa pública. O foco da investigação, que durará ao menos três anos, está em minerais como antimônio, cobalto, cobre, níquel, prata, chumbo e zinco — todos fundamentais para a indústria metalúrgica, eletrônica e de tecnologias limpas.

A estratégia espanhola é clara: transformar um problema ambiental em um ativo estratégico. As montanhas de resíduos de minas desativadas, que representam um risco ecológico, podem se tornar uma fonte doméstica de materiais cujo fornecimento global é hoje concentrado em poucas geografias. A leitura aqui é que se trata de uma abordagem de baixo impacto e alta inteligência estratégica para mitigar riscos na cadeia de suprimentos.

Um modelo para a mineração do futuro?

As quatro áreas designadas na reserva de Sierra Morena — ‘Santa Bárbara’ e ‘Elena’, em Córdoba, e ‘Paquito la Manzana’ e ‘Centenillo’, em Jaén — serão palco de um trabalho minucioso. Os planos incluem coleta de amostras, sondagens e campanhas geoquímicas, sempre acompanhados de projetos de restauração ambiental. O envolvimento direto do Estado sinaliza que o objetivo transcende o lucro imediato, mirando a segurança nacional e o desenvolvimento industrial de longo prazo.

Esta não é uma ação isolada. A Espanha já possui outras reservas estatais, como a de Aguablanca (níquel-cobre) e a de Morille (lítio e outros metais). A iniciativa na Andaluzia reforça uma política consistente de mapeamento e controle de seus recursos minerais. A grande questão é se o modelo de “re-mineração” será economicamente competitivo e escalável.

Ainda que a viabilidade econômica precise ser comprovada, a aposta estratégica é inequívoca. O movimento da Espanha é um experimento relevante sobre como nações podem repensar seus passivos industriais e ambientais. Para países como o Brasil, com um vasto histórico de mineração e seus consequentes depósitos de rejeitos, a experiência espanhola servirá como um importante estudo de caso sobre o potencial da economia circular aplicada à extração de recursos primários.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España