Em Vĩnh Long, no sul do Vietnã, uma casa de veraneio está redefinindo o uso de um material secular. Projetada pelo escritório NAQ Architecture, a residência se destaca por uma fachada inteiramente composta por tijolos de terracota reciclados, dispostos de forma a criar uma pele perfurada que envolve o edifício. A obra, reportada pela publicação de design e arquitetura Designboom, serve como um refúgio de fim de semana para uma família de Ho Chi Minh City.

Mais do que um artifício estético, a fachada é o principal dispositivo de climatização passiva da casa. A proposta não é apenas resgatar um material vernacular, mas reinventar sua função. Em um clima tropical úmido e quente, a solução oferece uma resposta de baixo custo e alta eficiência, transformando a própria arquitetura em um sistema de conforto ambiental.

A pele que respira

A estratégia do NAQ Architecture consiste em uma fachada dupla. A parede externa de tijolos de terracota, provenientes da tradicional vila de ceramistas de Mang Thít, funciona como um brise-soleil, barrando a incidência direta do sol antes que ele atinja a superfície envidraçada interna. Esse vão entre as duas camadas cria um corredor de ventilação, permitindo que o ar circule e resfrie o envelope do edifício. A trama de tijolos rotacionados filtra a luz, projetando padrões geométricos dinâmicos no interior e em varandas que ocupam esse espaço intermediário.

Essa abordagem transforma o que seria uma simples parede em um limiar habitável. Os terraços e varandas protegidos pela tela de terracota se tornam extensões da casa, permitindo o contato com o exterior sem a exposição direta ao sol forte. À noite, o efeito se inverte: a luz interna vaza pelas aberturas, e a fachada se converte em uma espécie de lanterna urbana, marcada pela textura quente e porosa do material.

Vazio como conector

Internamente, a lógica de fluidez e ventilação continua. Para um lote estreito, os arquitetos desenharam a planta ao redor de um grande vazio central com cobertura de vidro, que funciona como um pátio interno. Este elemento verticaliza a entrada de luz natural e promove a circulação de ar por toda a casa, conectando visualmente os diferentes pavimentos. Escadas e passarelas com guarda-corpos de malha metálica contornam esse espaço, mantendo a sensação de amplitude e abertura.

A paleta de materiais do interior ecoa a do exterior, com paredes em tons de terracota dialogando com o branco que reflete a luz zenital. O mobiliário é baixo e esparso, liberando as linhas de visão e reforçando a conexão entre os ambientes. A casa prioriza os espaços de convivência, que se abrem para um terraço com vegetação nos fundos, integrando o verde à arquitetura.

O projeto em Vĩnh Long é um estudo de caso em arquitetura bioclimática. Ele demonstra que a inovação não reside apenas em soluções de alta tecnologia, mas na releitura inteligente de materiais e técnicas vernaculares. A casa se torna um dispositivo ambiental em si, onde a fachada não é apenas um limite, mas o principal agente de conforto e identidade, oferecendo uma resposta sóbria e eficaz aos desafios de se construir nos trópicos.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Designboom