O setor de semicondutores, estrela dos mercados nos últimos meses, deu um passo atrás. O Philadelphia Semiconductor Index (SOX), principal referência do setor nos Estados Unidos, recuou quase 20% em junho, enquanto gigantes sul-coreanas como a SK Hynix viram suas ações caírem perto de 40% desde as máximas recentes.

O movimento acendeu um alerta: seria o fim da euforia impulsionada pela inteligência artificial ou apenas uma correção de rota? Para a gestora de investimentos Ashmore Group, a segunda opção é a mais provável. Segundo análise da firma, repercutida pelo InfoMoney, a venda generalizada não reflete uma deterioração dos fundamentos das empresas, mas sim um ajuste técnico no mercado.

O ruído da alavancagem

A leitura da Ashmore é que a correção foi catalisada mais por fatores de mercado do que por uma mudança estrutural na demanda por chips. A gestora aponta para a desmontagem de posições alavancadas, a reversão do forte impulso de alta dos preços e o comportamento especulativo de investidores de varejo como os principais vetores da queda.

Este fenômeno foi particularmente intenso na Coreia do Sul, onde o uso de ETFs alavancados por investidores individuais amplificou a volatilidade. A primeira alta de juros no país em três anos, para 2,75%, serviu como gatilho para acelerar a realização de lucros e a saída de posições mais arriscadas. Nos EUA, um padrão semelhante de especulação de varejo também teria contribuído para a intensidade do recuo.

A variável chinesa

Outro ponto de tensão recente foi o lançamento do Kimi K3, um modelo chinês de IA de código aberto com performance comparável a ferramentas de ponta como as da OpenAI e Anthropic. A notícia gerou preocupações sobre a rentabilidade futura dos laboratórios de IA proprietários e, por consequência, sobre a demanda por infraestrutura de hardware.

No entanto, a Ashmore acredita que o surgimento de modelos open-source mais baratos não deve frear a expansão da infraestrutura de IA. Pelo contrário, ao baratear o acesso, a tendência seria um aumento do consumo geral de semicondutores. O que pode ocorrer, segundo a análise, é uma redistribuição das margens de lucro ao longo da cadeia de valor — saindo dos laboratórios de IA para beneficiar as camadas de infraestrutura e aplicações.

A correção testa o apetite dos investidores que apostaram no rali da IA. A análise da Ashmore sugere um reajuste técnico, não uma crise fundamental. Ainda assim, o episódio serve como um lembrete de que a corrida tecnológica será marcada por alta volatilidade e realocação de capital, com a disputa entre modelos proprietários e abertos sendo um dos campos de batalha decisivos.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney