Nos anos 1960, o futuro parecia um lugar confortável. Na ponte de comando da nave estelar Enterprise, oficiais vestiam suéteres de veludo em cores primárias vibrantes, calças pretas de corte simples e botas de couro. Era um guarda-roupa que sinalizava otimismo e informalidade, a antítese do rigor militar. A missão, afinal, não era a guerra, mas a exploração. Este visual, hoje icônico, foi a primeira de muitas declarações de moda feitas pela Frota Estelar ao longo de quase seis décadas de história na televisão e no cinema.
Mais do que simples figurinos, os uniformes de Star Trek funcionam como um barômetro cultural, um espelho que reflete não apenas as mudanças estéticas de Hollywood, mas também as ansiedades e aspirações de cada momento histórico. Uma longa retrospectiva publicada pelo site Space.com cataloga essa evolução, revelando uma narrativa fascinante sobre como imaginamos o porvir. A cada nova série ou filme, a Frota Estelar se pergunta: como se veste um futuro ideal? A resposta nunca é a mesma.
Uma utopia em veludo
A visão original de Gene Roddenberry, criador da série, era a de uma humanidade que havia superado conflitos e se dedicado à ciência. O figurinista William Ware Theiss traduziu essa ideia em uniformes que pareciam mais pijamas de luxo do que trajes de batalha. A codificação por cores — azul para ciência e medicina, vermelho para operações e engenharia, e dourado para comando — foi pensada para saltar aos olhos nos novos aparelhos de televisão a cores. Curiosamente, o dourado do Capitão Kirk era, na verdade, um tecido verde-limão que, sob as luzes do estúdio e com a tecnologia da época, parecia ouro na tela. A percepção do público acabou reescrevendo o cânone.
Essa visão descontraída ruiu com a chegada da franquia aos cinemas. Para Star Trek II: A Ira de Khan (1982), o diretor Nicholas Meyer, que via a história como um épico naval no estilo "Hornblower no espaço", rejeitou os "pijamas". O figurinista Robert Fletcher instituiu as sóbrias túnicas cor de vinho, com golas altas coloridas e uma estrutura claramente militar. O uniforme deixou de ser um traje de explorador para se tornar a farda de um oficial. Era uma roupa mais lisonjeira para um elenco que envelhecia, mas também um sinal dos tempos: o futuro já não era um playground, mas um campo de batalha com consequências reais e duradouras. Este design se provou tão popular que permaneceu em uso por mais de uma década.
O futuro do trabalho (e da dor nas costas)
Com A Nova Geração, nos anos 80, Roddenberry tentou recapturar a utopia. Ele decretou um futuro sem zíperes ou botões, e o resultado foram os infames macacões de elastano. As peças, justíssimas, eram um pesadelo para o elenco. O material não respirava e causava tantos problemas de coluna que o quiroprata de Patrick Stewart (Capitão Picard) precisou intervir junto à produção. A busca por uma estética futurista e sem costuras colidiu com a ergonomia mais básica. A partir da terceira temporada, os uniformes foram redesenhados como um conjunto de duas peças, muito mais confortável, provando que mesmo no século 24, a praticidade vence o conceito.
As séries seguintes, Deep Space Nine e Voyager, abandonaram a formalidade em favor do utilitarismo. Seus macacões de duas peças, com ombros coloridos sobre um fundo preto, pareciam mais uniformes de trabalho do que de gala. Fazia sentido: uma se passava numa estação espacial na fronteira da civilização e a outra, numa nave perdida a 70 mil anos-luz de casa. Não havia tempo para a pompa da Enterprise-D. O uniforme tornou-se pragmático, refletindo narrativas mais sombrias e complexas. Quando a tripulação de Picard voltou ao cinema em Primeiro Contato, adotou uma versão mais sóbria e cinematográfica deste visual, com ombros cinzentos e golas coloridas, unificando a estética da franquia para uma era de maiores perigos.
As séries mais recentes, como Discovery e Strange New Worlds, continuam esse diálogo com o passado, ora reinventando designs clássicos com tecidos e cortes modernos, ora propondo estéticas radicalmente novas, como os uniformes assimétricos do século 32. A cada troca de guarda-roupa, a Frota Estelar não apenas atualiza seu visual, mas também renegocia sua própria identidade. A pergunta que fica, seis décadas depois, não é qual será o próximo uniforme, mas que tipo de futuro ele representará.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Space.com





