Pioneiro do crowdfunding no Brasil, o Vakinha decidiu dobrar a aposta em sua vocação original: as campanhas de arrecadação para causas pessoais e de impacto social. A decisão estratégica, detalhada pelo fundador e CEO Luiz Felipe Gheller em entrevista ao portal Startups, marca um ponto de inflexão para a empresa gaúcha, que optou por resistir à diversificação em um mercado que se fragmentou em nichos como o financiamento de projetos criativos e o equity crowdfunding.

A trajetória de 17 anos da plataforma é um estudo de caso sobre resiliência e foco. O movimento mais recente não é uma escolha trivial, mas uma resposta direta à maior ameaça existencial que o negócio já enfrentou: o Pix. Ao se consolidar como um intermediário de confiança em vez de um mero processador de pagamentos, o Vakinha não apenas sobreviveu à disrupção, como encontrou um caminho para fortalecer sua posição como uma peça fundamental da infraestrutura da solidariedade no país.

O teste do Pix

Antes do sistema de pagamentos instantâneos do Banco Central, o Vakinha era, nas palavras de seu fundador, “a maneira mais fácil de arrecadar e pedir ajuda”. O Pix mudou o jogo ao oferecer uma alternativa gratuita, instantânea e universal. O impacto foi imediato: o número de novas campanhas criadas na plataforma caiu de um pico de 4 mil para as atuais 2 mil por dia. O risco de obsolescência era real.

A resposta da empresa foi abraçar a tecnologia que a ameaçava. A tese que salvou o negócio, segundo Gheller, foi a reputação. A percepção do mercado é que uma campanha hospedada no Vakinha carrega mais credibilidade do que uma simples chave Pix divulgada em redes sociais. Para sustentar esse ativo, a empresa investiu em seus diferenciais: o prazo para liberação dos recursos foi reduzido de 14 para 5 dias e uma robusta operação antifraude foi montada, travando uma batalha diária para derrubar centenas de sites clonados por semana.

A vitrine da solidariedade

A reputação do Vakinha foi testada e amplificada durante a tragédia das enchentes no Rio Grande do Sul, quando a plataforma se tornou o principal canal de doações do país. A campanha, que tinha uma meta inicial de R$ 5 milhões, arrecadou cerca de R$ 80 milhões de mais de 1,2 milhão de doadores. A gestão da crise, com repasses rápidos e planilhas públicas de prestação de contas, funcionou como uma vitrine nacional para a credibilidade da marca.

Apesar da magnitude desses eventos, o CEO ressalta que a força do negócio reside no volume de campanhas menores, que arrecadam entre R$ 2.500 e R$ 15.000. O desafio é justamente engajar doadores para essas causas que não contam com a urgência de uma comoção nacional. Para isso, a empresa desenvolveu produtos como o Vakinha Anúncios, que permite aos criadores de campanhas comprar mídia na Meta (Facebook e Instagram) diretamente da plataforma, usando criativos e segmentações otimizados pela própria startup.

Após quase duas décadas, o Vakinha parece ter encontrado seu lugar. Em vez de perseguir a próxima fronteira do crowdfunding, a empresa se aprofunda em sua origem, entendendo que seu principal produto não é a tecnologia de arrecadação, mas a confiança. A ambição, agora, é se tornar a primeira opção na mente do brasileiro sempre que a palavra “doação” vier à tona, consolidando a responsabilidade de ser, de fato, uma infraestrutura essencial para a sociedade.

Com reportagem de Brazil Valley

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