A morte súbita de membros da poderosa família Medici no século XVI alimentou por mais de 400 anos uma narrativa de intriga e assassinato. A suspeita: envenenamento por arsênico, orquestrado por rivais dentro do próprio clã. Agora, a ciência moderna oferece uma resposta que, se é menos novelesca, não é menos fatal.
Um estudo publicado na revista iScience por pesquisadores das universidades de Pisa e Yale utilizou análise de DNA antigo para examinar os restos mortais do Grão-Duque Francesco I e de seu irmão, o cardeal Giovanni. A conclusão, conforme reportado pelo site espanhol Xataka, aponta para um culpado biológico: a malária.
A verdade no genoma
O estudo representa um marco na aplicação da paleogenética para resolver disputas históricas. Análises forenses anteriores foram inconclusivas; algumas apontavam para malária, outras para arsênico, perpetuando o debate. Ao extrair e sequenciar material genético de fragmentos de costelas, a equipe identificou traços inequívocos do Plasmodium falciparum, o parasita que causa a forma mais letal da doença. A tecnologia, portanto, não apenas confirma a causa da morte, mas encerra uma teoria da conspiração que sobreviveu por quatro séculos, demonstrando como a evidência molecular pode se sobrepor à ambiguidade das crônicas da época.
O fim da conspiração
A persistência da tese de envenenamento não era infundada. A Florença renascentista era um palco de poder, e os Medici, mestres do jogo. A morte de Francesco I e sua esposa em um intervalo de horas, beneficiando diretamente seu irmão Ferdinando na linha de sucessão, era um roteiro verossímil. O que a nova evidência sugere é que a realidade era mais mundana e, para a época, igualmente implacável. A malária era endêmica na Itália e uma ameaça constante, mesmo para a elite que governava a Toscana.
O desfecho científico do mistério dos Medici é um lembrete. Ele substitui a trama de uma tragédia shakespeariana pela dura realidade sanitária do século XVI, onde o maior inimigo dos poderosos muitas vezes não estava no palácio, mas na picada de um mosquito. A verdade, neste caso, estava no sangue.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Xataka





