Enquanto o debate público sobre riqueza e desigualdade se concentra nos titãs da tecnologia como Elon Musk e financistas de Wall Street, a verdadeira face do 1% americano é muito mais discreta e difusa. O bilionário arquetípico não é necessariamente um gênio do software, mas pode ser o dono de uma rede de concessionárias de carros da Flórida, como Terry Taylor, cuja fortuna de US$ 2 bilhões o colocou na lista da Forbes, mas seu nome permanece desconhecido para o grande público.
Segundo uma extensa reportagem da revista The Atlantic, baseada na pesquisa de dois economistas, esses são os "milionários de todos os lugares": uma vasta classe de proprietários de negócios privados que acumularam fortunas substanciais longe dos holofotes. A tese é que essa percepção equivocada sobre quem são os ricos ofusca o poder real que esse grupo exerce sobre a economia e, principalmente, sobre a legislação tributária, moldando-a a seu favor com uma eficiência que os bilionários famosos raramente conseguem.
A Riqueza Fora do Radar
A escala do fenômeno é o que mais surpreende. Os economistas calculam que cerca de 1,7 milhão de americanos possuem um patrimônio líquido de pelo menos US$ 10 milhões obtido através de um negócio privado. Para cada CEO de uma empresa de capital aberto, existem mais de mil proprietários de negócios privados com um patrimônio superior a US$ 25 milhões. Essa classe de ricos não está concentrada em polos como Vale do Silício ou Nova York; ela está distribuída por todo o país, em setores que passam longe do glamour da nova economia: de magnatas da madeira tratada a donos de lava-rápidos e fabricantes de capas para barcos.
A estrutura que permite essa acumulação silenciosa de capital é, em grande parte, o modelo de "pass-through business". Popularizado após a reforma tributária americana de 1986, esse formato permite que os lucros da empresa fluam diretamente para os donos, sendo tributados apenas na pessoa física. Com o tempo, essa estrutura foi acrescida de brechas e deduções que, na prática, fazem com que um dólar ganho em um negócio seja tributado muito menos do que um dólar recebido como salário, mesmo para os profissionais mais bem pagos.
O Lobby do "Pequeno Negócio"
O poder desses milionários não está na sua fama, mas na sua influência política. A estratégia, devastadoramente eficaz, é se esconder atrás da imagem do "pequeno negócio". Quando políticos defendem cortes de impostos para as faixas de renda mais altas, o argumento frequentemente invocado não é beneficiar os ultra-ricos, mas sim apoiar os "pequenos empresários", uma narrativa com forte apelo popular e político. Foi sob essa bandeira que uma dedução de 20% para negócios "pass-through" se tornou permanente, ou que brechas para evitar impostos sobre a folha de pagamento foram mantidas.
Essa opacidade é uma vantagem estratégica. Enquanto as finanças de empresas de capital aberto e seus executivos são públicas, os detalhes financeiros de negócios privados são zelosamente guardados. Nem a imprensa especializada, como a Forbes, nem o próprio governo americano, através do Federal Reserve ou da Receita Federal (IRS), conseguem ter uma visão clara e completa desse universo. Essa falta de transparência dificulta não apenas a medição da riqueza, mas também a avaliação do impacto real das políticas fiscais, permitindo que o grupo continue a operar e a influenciar a legislação com um escrutínio mínimo.
No fim, a história dos "milionários de todos os lugares" sugere que o debate sobre desigualdade pode estar olhando para o alvo errado. A atenção midiática sobre os excessos de bilionários excêntricos talvez sirva como uma cortina de fumaça para a ação mais estrutural e silenciosa de uma classe que, sem dar entrevistas ou lançar foguetes, molda a economia real. Entender quem são e como operam é o primeiro passo para compreender a sociedade e a distribuição de poder como elas realmente são.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · The Atlantic — Ideas





