Um dos vilões mais icônicos da Marvel subiu à tribuna da câmara municipal de Seattle esta semana. Com máscara de metal e sotaque do leste europeu, o Doutor Destino agradeceu aos vereadores por cobrirem a cidade com câmeras de vigilância. “Doom assumiu o controle da Axon [...] e agora Doom estará observando vocês”, declarou o personagem. “Devemos trabalhar para esmagar qualquer dissidência à visão de Doom sobre a segurança pública.”

Por trás da máscara não estava o déspota da Latvéria, mas Clifford Cawthon, um servidor público e membro do grupo ativista Community Not Cameras. Segundo reportagem do portal 404 Media, o ato foi um teatro político calculado para expor o que os ativistas veem como uma perigosa escalada da vigilância em massa na cidade, impulsionada por tecnologias de empresas como Axon e Flock. A performance irônica serve de gancho para um debate mais profundo: a que custo se busca a segurança e quem se beneficia da infraestrutura de controle?

O teatro como espelho

A ideia de encarnar um supervilão surgiu após Cawthon visitar o centro de criminalidade em tempo real (RTCC) de Seattle, que ele descreveu como uma “toca de vilão” saída do filme Minority Report. O local integra informações de câmeras de segurança, câmeras corporais de policiais, leitores de placas de veículos e outros sensores em um único painel de monitoramento. “Há uma parede com cerca de nove telas nas quais eles podem exibir câmeras de toda a cidade a qualquer momento”, afirmou Cawthon ao 404 Media.

Para os ativistas, a escala e a opacidade do sistema são tão absurdas que apenas uma resposta igualmente teatral poderia chamar a atenção do público. Inspirados por um protesto similar em que um ativista se vestiu de Darth Vader em San Diego, o grupo decidiu que o Doutor Destino seria a persona ideal. A leitura é que a retórica da segurança total, vendida pela prefeitura e por fornecedores de tecnologia, ecoa a lógica de um autocrata de história em quadrinhos. O vilão, nesse caso, não precisa criar a distopia; basta aplaudir a que já está sendo construída.

Vigilância ou vilania?

As preocupações do grupo Community Not Cameras vão muito além da encenação. Cawthon aponta para uma lista de riscos concretos associados a essas tecnologias. A primeira é a segurança dos dados, que, segundo ele, não é garantida. Empresas do setor, afirma, colaboram abertamente com agências federais como a ICE (imigração e alfândega), levantando temores sobre o uso das informações para deportações.

Além disso, há o histórico de abuso. O ativista cita múltiplos casos de policiais que usaram dados de vigilância para perseguir ex-parceiros e o potencial de que os sistemas amplifiquem o policiamento discriminatório contra minorias. Ao agradecer ironicamente em nome de Doom, Cawthon força a audiência a confrontar o argumento implícito: se um vilão fascista aprova suas políticas de segurança, talvez elas não sejam tão heroicas quanto parecem.

O teatro político parece ter surtido efeito. A performance gerou visibilidade para uma petição do grupo e, segundo Cawthon, um comitê da câmara já votou para redirecionar US$ 250 mil que iriam para a expansão de câmeras. A mensagem utiliza a linguagem universal da cultura pop para traduzir um debate complexo sobre políticas públicas, sugerindo que as linhas entre heróis e vilões, quando se trata de vigilância, podem ser mais tênues do que se imagina.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · 404 Media