Após duas décadas de uma revolução interna que transformou os Estados Unidos em uma potência energética, as principais produtoras de petróleo de xisto do país estão voltando a olhar para fora. Empresas como EOG Resources, Occidental Petroleum e ConocoPhillips, que se tornaram gigantes explorando as bacias de xisto do Texas à Dakota do Norte, agora miram o Oriente Médio, a América do Sul e a África em busca da próxima grande descoberta.
O movimento sinaliza o fim de um ciclo. A era das descobertas de baixo risco nos campos de xisto está madura, e a busca pela próxima grande fronteira agora é global. Segundo reportagem da revista Fortune, este retorno à exploração internacional, ou “wildcatting”, não é apenas uma mudança de portfólio, mas uma recalibragem estratégica que exige a reconstrução de competências que a própria indústria deixou atrofiar.
O esgotamento da memória muscular
A bonança do xisto, embora tenha garantido a independência energética americana, teve um efeito colateral: a indústria “desaprendeu” a explorar. Como aponta Bobby Tudor, fundador da Artemis Energy Partners, o foco obsessivo na perfuração e fraturamento hidráulico em geologias já conhecidas “esvaziou a memória muscular da exploração nos EUA”. Uma geração inteira de profissionais do setor, segundo ele, “nunca perfurou um poço seco”, um rito de passagem na arriscada prospecção em novas fronteiras.
Agora, com o crescimento nos campos de xisto americanos em modo de consolidação, e não mais de expansão acelerada, o capital e o apetite por risco voltam a cruzar fronteiras. Ezra Yacob, CEO da EOG Resources, uma das pioneiras da tecnologia de xisto, afirmou em uma conferência em Houston que a exploração internacional está “na mente de todos”. A EOG já opera poços nos Emirados Árabes Unidos, com resultados que, segundo ele, superam as expectativas iniciais.
O novo mapa do petróleo
A geografia desta nova corrida reflete tanto oportunidades geológicas quanto o tabuleiro geopolítico. Enquanto a EOG vê no xisto de Abu Dhabi um espelho da bem-sucedida bacia de Eagle Ford, no sul do Texas, outras empresas desembarcam na América do Sul. A Continental Resources, do bilionário Harold Hamm, expande na Argentina. Gigantes como ExxonMobil e Chevron, que nunca abandonaram totalmente o cenário global, aumentam seus orçamentos para projetos na Guiana, Cazaquistão e avaliam um potencial retorno à Venezuela.
Este redirecionamento é também uma resposta a um mundo que busca diversificar suas fontes de energia, especialmente diante de conflitos como a guerra no Irã, citada na reportagem. A busca por parceiros confiáveis e geograficamente diversos impulsiona o interesse em toda a América, do Alasca à Argentina. Para as petroleiras, o desafio é duplo: reativar a cultura do risco e da descoberta e, ao mesmo tempo, navegar em ambientes operacionais e políticos muito mais complexos que os campos do Texas. Como resumiu Yacob, da EOG: “Ir para o mercado internacional não é fácil. Ir para o sul do Texas, isso é fácil.”
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





