A Organização Mundial do Comércio (OMC) divulgou um relatório otimista que revisa substancialmente para cima suas projeções para o comércio global de mercadorias em 2026. A expectativa agora é de um crescimento de 3,9% no volume, um salto expressivo em relação aos 1,9% previstos em março. Para 2027, a projeção é ainda mais robusta, com um avanço de 4,1%. Essa revisão significativa é impulsionada, em grande parte, pelo boom de investimentos em infraestrutura relacionada à inteligência artificial (IA).

O relatório, intitulado «Perspectivas e estatísticas do comércio mundial», aponta que o comércio de bens que viabilizam o desenvolvimento da IA, como semicondutores e servidores, representou 47% do crescimento total do comércio mundial de mercadorias até junho. Essa demanda aquecida pela IA ajudou a mitigar os impactos negativos de outras perturbações, como a guerra no Oriente Próximo e a volatilidade nos mercados de energia e fertilizantes.

O Motor da IA no Comércio Global

A inteligência artificial emerge como um vetor fundamental para a expansão do comércio global. O investimento massivo em infraestrutura de IA, com projeções de aumento de pelo menos 30% este ano e entre 10% a 20% adicionais em 2027, tem gerado uma demanda sem precedentes por bens de alta tecnologia. Essa dinâmica compensa, em parte, as dificuldades enfrentadas em outros setores, como a queda de 24% nas exportações de petróleo bruto e de 47% em gás natural liquefeito (GNL) da região do Golfo Pérsico.

A OMC estima que o volume do comércio de mercadorias cresceu 3,5% no primeiro semestre de 2026, superando as expectativas. Esse desempenho positivo, segundo a organização, demonstra a resiliência do sistema comercial global, que, apesar das tensões geopolíticas, consegue manter o fluxo de bens essenciais. A diretora-geral da OMC, Ngozi Okonjo-Iweala, ressaltou que um sistema comercial baseado em normas oferece flexibilidade para garantir o suprimento necessário a empresas e consumidores.

Desigualdades Regionais e o Comércio de Serviços

Contudo, a análise da OMC também revela um cenário de desigualdades regionais acentuadas. Enquanto a Ásia lidera as projeções de crescimento em exportações de mercadorias (9,9%), seguida por América do Norte (5,7%) e África (5,6%), a Europa apresenta um desempenho fraco (-0,1%), e a Comunidade de Estados Independentes (CEI) e o Oriente Próximo projetam contrações drásticas (-3,9% e -17,2%, respectivamente). As importações também seguem um padrão similar, com Ásia e África liderando os aumentos.

No comércio de serviços, as perspectivas foram moderadas em relação às previsões de março, com a OMC agora prevendo um crescimento de 3,3% em 2026, abaixo dos 4,8% estimados anteriormente. O conflito no Oriente Próximo impactou os serviços de transporte e viagens, embora serviços digitais tenham mantido estabilidade. A Europa deve liderar o crescimento em exportações de serviços em 2026 (4,6%), seguida pela Ásia (4%). O Oriente Próximo, por outro lado, deve sofrer uma contração de 10,3%.

Implicações e Desafios Futuros

A forte aposta em IA como motor do comércio global levanta questões sobre a inclusão e o acesso a essas novas oportunidades. Okonjo-Iweala alertou que nem todos se beneficiam igualmente do avanço tecnológico, destacando a importância de um sistema comercial que absorva perturbações e reduza as brechas de acesso. A concentração de investimentos em IA pode aprofundar as disparidades entre países e regiões, criando novos desafios para o desenvolvimento equitativo.

Obrigatoriedade de um sistema comercial inclusivo e baseado em normas é crucial para garantir que os benefícios da IA sejam amplamente distribuídos. A OMC busca atuar como um facilitador nesse processo, promovendo um ambiente que permita a todos os países participar e prosperar na economia global digitalizada. A resiliência demonstrada até agora é um indicativo positivo, mas a atenção às desigualdades emergentes será fundamental para o futuro.

Perguntas em Aberto na Era da IA

O cenário delineado pela OMC abre importantes questionamentos sobre o futuro do comércio internacional. Como garantir que os benefícios da IA sejam distribuídos de forma equitativa entre as nações, evitando a concentração de riqueza e poder tecnológico? Qual o papel das políticas comerciais e dos acordos internacionais na mitigação das desigualdades que a revolução da IA pode acentuar?

A OMC sinaliza um otimismo cauteloso, fundamentado na capacidade de adaptação do comércio global. No entanto, a sustentabilidade desse crescimento e sua capacidade de promover um desenvolvimento inclusivo dependerão de como os desafios de acesso e distribuição serão abordados pelas nações e pelas próprias organizações multilaterais. A vigilância sobre as tendências regionais e o impacto da IA em diferentes setores será crucial para navegar este novo panorama.

O impulso gerado pela inteligência artificial no comércio global é inegável, mas a jornada rumo a um crescimento sustentável e equitativo ainda apresenta obstáculos significativos. A forma como os países e as instituições internacionais responderão aos desafios de inclusão e acesso definirá o impacto de longo prazo dessa nova onda tecnológica no cenário econômico mundial.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España