A trajetória da On Running no mercado global de calçados esportivos atingiu um ponto de inflexão notável. O que antes era categorizado como uma escolha puramente funcional — frequentemente associada a corredores amadores ou a um público mais velho em busca de conforto — transformou-se em uma peça de desejo no cenário da moda urbana. A mudança não foi acidental, mas fruto de um ajuste preciso no design e na curadoria de imagem da marca suíça, que soube capitalizar sobre sua estética singular.
Segundo reportagem da Highsnobiety, a percepção pública sobre a On passou por uma transformação radical nos últimos trimestres. A marca, que durante anos lutou contra um estigma de ser uma opção 'estranha' ou excessivamente técnica, agora ocupa prateleiras de varejistas de moda com modelos que equilibram performance e apelo estético. Essa transição reflete uma mudança mais ampla no comportamento do consumidor, que passou a valorizar silhuetas que fogem do padrão convencional do mercado de tênis.
A estética do 'bom feio' no design
O sucesso recente da On Running pode ser atribuído, em parte, à aceitação do conceito de 'bom feio' — designs que, por serem distintos e desafiadores, acabam por se tornar mais memoráveis que os modelos esteticamente convencionais. Ao contrário das formas genéricas que dominaram o mercado esportivo por anos, a On manteve o DNA técnico de seus modelos, mas refinou as proporções. Modelos como o Cloudmonster e o Cloudsurfer Max demonstram essa evolução: silhuetas que são simultaneamente volumosas e esguias, conferindo uma personalidade única ao produto.
A marca também demonstrou um amadurecimento significativo em sua paleta de cores. O abandono de combinações cromáticas excessivamente vibrantes e tecnicistas em favor de tons tonais e sóbrios permitiu que o design dos tênis falasse por si. A capacidade de um modelo performar bem em versões 'triple black' é, no mundo do design de calçados, o teste definitivo de que uma silhueta possui mérito próprio, sem depender de truques visuais para atrair a atenção.
O papel das colaborações estratégicas
Outro pilar fundamental para essa mudança de percepção foram as parcerias estratégicas com nomes de peso no design e no varejo de luxo. Colaborações com marcas como LOEWE, Kith e Post Archive Faction serviram para validar a On como um player legítimo na moda. Esses parceiros não apenas trouxeram visibilidade, mas ajudaram a educar o consumidor sobre como integrar o design técnico e, por vezes, excêntrico da On em contextos de moda urbana mais sofisticados.
Essas colaborações funcionam como uma chancela de autenticidade. Ao se associar a labels que possuem uma visão vanguardista, a On conseguiu desassociar sua imagem daquela do calçado puramente utilitário. O design original da marca, que antes era uma barreira, tornou-se o seu maior diferencial competitivo, permitindo que a empresa se posicionasse em um segmento onde a distinção visual é, frequentemente, o fator decisivo para a conversão de compra.
Tensões entre performance e lifestyle
O desafio para a On Running daqui em diante reside em manter o equilíbrio entre sua herança de performance técnica e o novo status como objeto de desejo. O risco de se tornar uma marca de moda 'excessiva' é real, e a gestão da marca precisa garantir que a qualidade do produto não seja sacrificada em prol de tendências passageiras. A reação de consumidores céticos, que antes rejeitavam a marca, indica que o público está disposto a aceitar essa dualidade, desde que a entrega de valor permaneça alta.
Para o ecossistema de varejo, a On representa um caso de estudo sobre como uma marca pode pivotar seu posicionamento sem abandonar suas raízes. A capacidade de transitar entre o corredor de maratonas e a passarela de moda é um feito raro. Observadores do mercado devem monitorar como a empresa escalará essa estratégia sem diluir a identidade que a tornou um fenômeno.
O futuro da marca no mercado global
Permanece a dúvida sobre até que ponto a On conseguirá sustentar esse ímpeto. O mercado de sneakers é volátil e altamente suscetível a mudanças rápidas de preferência. A longevidade da marca dependerá de sua habilidade em continuar inovando sem perder a essência que a tornou um sucesso inesperado. A atenção agora se volta para os próximos lançamentos, que deverão provar se o momento atual é uma tendência duradoura ou um pico de popularidade.
O mercado brasileiro, cada vez mais atento às movimentações globais de moda e tecnologia, observa de perto se essa estética técnica encontrará ressonância local. A pergunta que fica é se o consumidor médio, que prioriza a versatilidade, continuará a ver valor no design peculiar da On conforme a marca se torna mais onipresente nas ruas e nas vitrines.
A evolução da On Running sugere que, no mercado atual, a autenticidade de um produto pode ser o ativo mais valioso para uma empresa. Ao abraçar suas estranhezas e transformá-las em um diferencial de estilo, a marca não apenas sobreviveu à sua própria reputação, mas redefiniu as expectativas do que um tênis de corrida pode representar no guarda-roupa contemporâneo. A trajetória da empresa continua aberta a novos desdobramentos.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Highsnobiety





