O episódio envolvendo Matthew Mayich, um promissor jogador de hóquei da Arizona State University (ASU), que foi internado em estado crítico após um treino sob calor intenso, lança um holofote sombrio sobre os riscos crescentes de insolação em atletas. O incidente, ocorrido em agosto, quando as temperaturas já beiravam os 32°C às 7h da manhã, resultou em um colapso e posterior coma induzido para Mayich, de 21 anos. Sua família busca responsabilização, enquanto colegas de equipe apontam para a falha da universidade em seguir suas próprias diretrizes de segurança contra o calor.
A situação de Mayich não é isolada. Ele se soma a uma lista trágica de atletas que sofreram fatalidades ou graves consequências devido à exaustão pelo calor, um fenômeno que se agrava com as mudanças climáticas. A morte de Korey Stringer, estrela da NFL, em 2001, após um treino sob calor extremo, foi um marco que impulsionou discussões sobre segurança. Contudo, décadas depois, a aplicação de protocolos eficazes ainda é inconsistente, especialmente em níveis inferiores ao esporte profissional.
A ciência da prevenção e a realidade da aplicação
Pesquisadores e especialistas em fisiologia do exercício há décadas conhecem os mecanismos da insolação por esforço (exertional heat stroke) e as melhores práticas para sua prevenção e tratamento. O Dr. Doug Casa, CEO do Korey Stringer Institute, destaca que o conhecimento técnico para evitar tais tragédias existe, mas sua implementação em tempo real, especialmente em momentos de crise, é onde as políticas falham. A insolação por esforço ocorre quando o corpo superaquece e não consegue se resfriar, sendo uma das principais causas de mortes esportivas evitáveis. O aumento da frequência e intensidade de ondas de calor, aliado ao uso crescente de gramados sintéticos que retêm mais calor, intensificam o risco.
O caso de Mayich exemplifica essa falha. Relatos de colegas indicam que o treino, que deveria durar 45 minutos, se estendeu por 75. Mais alarmante, as precauções exigidas pela própria política de calor da ASU – como banhos de imersão em gelo, medição contínua da temperatura ambiente e pausas programadas – não foram seguidas. A resposta inicial, com toalhas geladas e água, foi insuficiente, e a gravidade do quadro só foi reconhecida quando o atleta já apresentava desorientação visível e não conseguia se levantar. O treinador convidado, Tim Ziesel, e o técnico principal da equipe, Greg Powers, tiveram suas ações questionadas, com o clube colocando Powers em licença remunerada.
Disparidades nas políticas de segurança
Embora ligas profissionais como a NFL e a National Women’s Soccer League (NWSL) tenham desenvolvido protocolos mais robustos, incluindo o uso da métrica WBGT (Wet Bulb Globe Temperature) para medir o estresse térmico e a exigência de banhos de imersão, a aplicação e fiscalização variam. A NFL, por exemplo, exige o uso do WBGT, mas deixa a interpretação e os limiares de ação a critério das equipes. A NWSL, por outro lado, tem regras mais claras sobre pausas e adiamento de jogos com base em temperaturas de bulbo úmido.
No entanto, a maior disparidade ocorre nos níveis inferiores do esporte. Não existem regulamentações federais nos EUA para segurança contra o calor em esportes. Organizações como a National Federation of State High School Associations oferecem diretrizes, mas sua adoção é facultativa para estados e distritos escolares. O Korey Stringer Institute avalia os estados com base em mandatos como a aclimatação ao calor, o uso do WBGT e a disponibilidade de banhos de gelo, concedendo uma pontuação máxima de 20 pontos. Estados como Geórgia e Louisiana obtiveram pontuações máximas, demonstrando o sucesso de políticas rigorosas, enquanto outros, como Minnesota e Dakota do Norte, registram zero pontos, evidenciando a falta de medidas de segurança.
Implicações e o futuro da segurança esportiva
O caso de Mayich ressalta a urgência de uma abordagem mais padronizada e rigorosa para a segurança contra o calor em todas as esferas do esporte. A dependência de métricas como a temperatura e o índice de calor, que não consideram fatores como umidade, vento e radiação solar, é insuficiente. A métrica WBGT, que integra esses elementos, é considerada o padrão ouro, mas sua adoção e aplicação consistente ainda são um desafio. A falta de infraestrutura adequada, como banhos de imersão em gelo prontamente acessíveis, pode ser a diferença entre a vida e a morte, como demonstrou o caso de Korey Stringer.
A responsabilidade não recai apenas sobre as instituições de ensino ou ligas esportivas. É fundamental que treinadores, atletas e pais estejam cientes dos riscos e exijam o cumprimento das melhores práticas. A crescente incidência de eventos climáticos extremos sugere que o problema só tende a se agravar, tornando a adaptação das políticas de segurança uma necessidade imperativa para proteger a saúde e a vida dos atletas.
O que aconteceu com Matthew Mayich é um alerta severo para o mundo do esporte. A ciência oferece caminhos claros para a prevenção e o tratamento da insolação por esforço, mas a lacuna entre o conhecimento e a prática continua a colocar vidas em risco. A busca por responsabilização e verdade por parte da família Mayich ecoa a necessidade de uma reflexão profunda sobre os protocolos de segurança e a cultura de desempenho que, por vezes, ignora os limites do corpo humano frente a um ambiente cada vez mais hostil.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Grist





