O ar do Parc de la Mar, em Palma, carrega um cheiro complexo. É o aroma do pimentão da Múrcia, do azeite andaluz, talvez do queijo galego. Ao fundo, o ritmo de uma batucada se mistura com o lamento distante de uma guitarra flamenca. Por três dias, este pedaço do litoral de Mallorca não é apenas uma ilha, mas um continente em miniatura. A Feira de Setembro das casas e centros regionais é, antes de tudo, um evento para os sentidos, uma celebração da Espanha plural que raramente se senta à mesma mesa.

Um país em um parque

O conceito de "casas regionais" é uma instituição espanhola. São embaixadas culturais informais, pontos de encontro para os que vivem longe de sua terra natal. Vê-las reunidas — a valenciana, a canária, a basca, a madrilenha — é mais do que um festival gastronômico. É um ato político sutil. Em um país cuja constituição tenta equilibrar a unidade nacional com a autonomia de suas comunidades, um evento como este serve de laboratório. Aqui, a identidade não é uma abstração de Madri, mas algo que se come, se dança e se ouve. A programação, que vai do folclórico ball de bot local ao pop-rock, espelha essa convivência, por vezes harmoniosa, por vezes ruidosa.

O sabor da identidade

A "feira do tapeo" é o coração da experiência. Cada porção servida não é apenas comida; é um argumento. É a afirmação de uma culinária, de uma história e de um povo. Para o visitante, é a chance de viajar pela Espanha em poucos metros, descobrindo que a paella de um estande não tem nada a ver com a do vizinho, e que o sotaque de quem serve muda drasticamente de uma barraca para outra. A presença da Artea Euskal Etxea de Mallorca, a casa basca, ao lado da Casa de Andalucía, por exemplo, materializa um diálogo que, nos telejornais, costuma ser feito de tensões e manchetes.

O evento se encerra com a animação infantil e os sons modernos de uma banda de pop-reggae. As crianças, talvez filhas de pais de regiões distintas, correm entre as barracas. A música, global e contemporânea, paira sobre as tradições. Fica a imagem de um mosaico em constante movimento, uma Espanha que, para se entender, precisa ser provada, pedaço por pedaço.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España