Quatro aventureiros, liderados por Kevin Vallely, iniciaram uma circunavegação de 700 a 800 quilômetros de caiaque ao redor da Ilha King William, no alto Ártico canadense. A jornada, que partiu da comunidade de Gjoa Haven, não é um mero teste de resistência física, mas uma peregrinação a um dos locais mais emblemáticos e trágicos da história da exploração polar.

É nesta ilha que o destino da expedição de Sir John Franklin foi selado em meados do século 19. Onde seus navios de guerra, o HMS Erebus e o HMS Terror, foram aprisionados pelo gelo, os caiaques de hoje deslizam com relativa facilidade. A leitura aqui não é sobre a superioridade do equipamento moderno, mas sobre a profunda transformação de uma paisagem que, um dia, foi implacável.

O fantasma de Franklin

Em 1846, a expedição de Franklin estava prestes a completar a Passagem do Noroeste quando seus navios ficaram presos no gelo ao norte da Ilha King William. Por dois anos, a tripulação esperou por um degelo que nunca veio. O próprio Franklin morreu a bordo em 1847. Eventualmente, os sobreviventes tentaram uma fuga desesperada por terra, mas todos pereceram.

O mistério em torno do local exato do túmulo de Franklin persiste, sendo um dos grandes enigmas do Ártico. Segundo a reportagem do ExplorersWeb, que inspira esta análise, uma segunda equipe, liderada pelo historiador amador Tom Gross, percorre a ilha simultaneamente em veículos motorizados, numa busca arqueológica por vestígios da expedição, incluindo a sepultura do comandante.

Um Ártico diferente

O contraste entre as duas épocas é gritante. O gelo marinho que foi uma armadilha mortal para Franklin não representa hoje o mesmo obstáculo intransponível. A expedição de Vallely tem boas chances de sucesso, pois o período escolhido para a viagem encontra a maior parte da rota livre de gelo. Veleiros privados e até navios de cruzeiro agora contornam o Cabo Felix, o ponto onde os navios de Franklin ficaram presos, por vezes sem avistar um único bloco de gelo.

A jornada dos caiaques torna-se, assim, uma régua para medir o tempo e o clima. Eles não remam por um território virgem, mas por uma paisagem saturada de história. Cada quilômetro percorrido é um lembrete da resiliência humana, tanto a dos que pereceram quanto a dos que hoje seguem seus rastros em condições radicalmente distintas.

A aventura contemporânea no Ártico parece ser menos sobre a conquista do desconhecido e mais sobre a reinterpretação do conhecido. É um diálogo com os fantasmas do passado, realizado num cenário que o próprio passado talvez não reconhecesse mais.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ExplorersWeb