A ONU consolidou recentemente sua agenda de IA com a apresentação do primeiro painel científico global sobre o tema durante a Geneva Digital Week. Apesar do volume impressionante de documentos, como o Pacto Digital Global e relatórios sobre governança, a organização mantém um foco estrito no lado da demanda da tecnologia. Segundo reportagem da Fast Company, a ONU trata a IA como um recurso a ser recebido e monitorado, ignorando deliberadamente o lado da oferta, onde a tecnologia de fronteira é efetivamente criada e avaliada.

Essa estratégia cria um vácuo perigoso. Atualmente, não existe um órgão multilateral com capacidade técnica para examinar o trabalho de laboratórios, avaliar ciclos de treinamento ou compartilhar infraestrutura de incidentes entre fronteiras. A arquitetura de governança para as próximas décadas está sendo definida por acordos bilaterais entre laboratórios e governos anfitriões, deixando o restante do mundo à margem das decisões de segurança tecnológica.

O vácuo institucional na governança de IA

A ausência de presença da ONU nos centros de desenvolvimento de IA contrasta com a necessidade global de supervisão. Atualmente, decisões sobre quais populações têm acesso a tecnologias de segurança são tomadas por administrações nacionais, como exemplificado pela Casa Branca ao autorizar a liberação de modelos da Anthropic para instituições americanas. Esse modelo de governança fragmentada gera frustração em autoridades europeias e de outras regiões, que se veem dependentes das prioridades políticas de Washington.

O modelo atual de avaliação voluntária, conduzido por institutos nacionais no Reino Unido e nos EUA, é insuficiente para garantir a segurança global. Embora os laboratórios citem essas parcerias como evidência de desenvolvimento responsável, a pergunta que o sistema multilateral falha em endereçar é por que a garantia de segurança disponível para dois países não deveria ser estendida aos outros 191 estados membros da ONU.

O precedente da energia nuclear

Uma alternativa viável reside no modelo da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), criada em 1957. A AIEA estabeleceu um precedente ao atuar diretamente onde o material nuclear é produzido, garantindo transparência técnica mesmo em países com capacidades nucleares distintas. Esse arranjo permitiu que nações sem programas nucleares recebessem garantias de segurança a partir de um sistema que nenhuma delas poderia construir isoladamente.

A aplicação dessa lógica à IA ofereceria aos laboratórios de fronteira uma credencial de confiança global, protegendo-os contra a fragmentação regulatória que acordos país a país inevitavelmente produzem. O interesse das empresas em serem confiáveis mundialmente, e não apenas em mercados específicos, poderia servir como incentivo para a aceitação de uma supervisão multilateral mais robusta.

Tensões geopolíticas e o papel da ONU

A concentração da produção de IA nos EUA e na China impõe barreiras políticas significativas. Em 1953, o cenário nuclear entre Washington e Moscou parecia igualmente intransponível, mas a percepção de que a visibilidade mútua era preferível à opacidade mútua permitiu a criação da AIEA. O desafio atual é se a ONU conseguirá utilizar agendas de reforma para replicar esse nível de cooperação técnica antes que a arquitetura atual se torne imutável.

Para reguladores e a indústria, a questão central é o custo da fragmentação. Sem um padrão global de avaliação, a indústria de IA corre o risco de enfrentar um cenário de conformidade caótico, onde cada jurisdição impõe exigências técnicas desconexas que dificultam a escala e a inovação.

Perspectivas para a governança global

O que permanece incerto é se os grandes laboratórios e as potências tecnológicas aceitarão uma supervisão que ultrapasse os limites de suas fronteiras nacionais. A janela de oportunidade para definir essa arquitetura de governança é curta, dada a velocidade com que os acordos bilaterais estão sendo selados.

Observar a evolução da agenda de reformas da ONU e a disposição dos laboratórios em aceitar auditorias internacionais será fundamental. A tecnologia de fronteira não pode ser tratada apenas como um produto de mercado, mas como uma infraestrutura de risco global que exige uma governança à altura de seu impacto. O debate sobre a criação de um organismo nos moldes da AIEA para a IA está apenas começando.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fast Company