A Organização das Nações Unidas oficializou nesta sexta-feira a inclusão de Israel e da Rússia em sua lista de partes suspeitas de cometer violência sexual em zonas de conflito. A medida, que marca uma escalada na pressão diplomática global, reflete a conclusão do relatório anual apresentado pelo secretário-geral António Guterres ao Conselho de Segurança, citando padrões de abusos atribuídos às forças de segurança de ambos os países.
A resposta de Israel foi imediata e drástica. O Ministério das Relações Exteriores do país anunciou o corte de todos os laços com o gabinete de Guterres, classificando a decisão como uma manobra política desconectada da realidade. O embaixador israelense na ONU, Danny Danon, afirmou que o governo forneceu respostas detalhadas às alegações, enquanto a missão russa manteve silêncio sobre o documento que também lista o Hamas como perpetrador de crimes similares.
O peso institucional do relatório
Embora a lista da ONU não imponha sanções automáticas, ela carrega um peso simbólico e reputacional significativo. A inclusão funciona como uma forma de "nomear e envergonhar" Estados, dificultando a participação de suas forças em futuras operações de manutenção da paz. Historicamente, esse mecanismo é utilizado para pressionar governos a investigarem abusos internos, mas sua eficácia tem sido questionada em cenários onde a polarização geopolítica domina o Conselho de Segurança.
O relatório deste ano, compilado pela representante especial Pramila Patten, aponta que o número de casos verificados de violência sexual em conflitos globais cresceu mais de 100% em 2025 frente ao ano anterior. Patten descreveu o cenário como uma tendência perturbadora, onde agressores se sentem encorajados por um ambiente de impunidade crescente. A dificuldade de acesso para verificação independente, citada por Israel como um ponto de discórdia, ilustra a complexidade operacional que a ONU enfrenta ao tentar documentar atrocidades em zonas de guerra ativa.
Dinâmicas de isolamento e impunidade
A inclusão de Israel ao lado de um grupo militante como o Hamas — que já figurava na lista — gerou uma indignação profunda em Jerusalém. A leitura diplomática é que a ONU, ao equiparar um Estado soberano a uma organização classificada como terrorista, perde a neutralidade necessária para a mediação. Esse movimento pode, paradoxalmente, diminuir a influência da organização em negociações futuras sobre o conflito em Gaza, isolando ainda mais a mediação de Guterres.
Para a Rússia, a inclusão reforça o isolamento diplomático já consolidado desde o início da guerra na Ucrânia. No entanto, a posição de Moscou no Conselho de Segurança, com poder de veto, torna qualquer ação subsequente da ONU improvável. O mecanismo de incentivos da organização parece falhar quando os Estados listados possuem meios para ignorar a pressão externa ou quando o custo político de cooperar com a ONU supera os benefícios de manter a soberania total sobre as operações militares.
Tensões entre soberania e direitos humanos
O rompimento de Israel com o gabinete de Guterres levanta questões sobre o futuro da cooperação entre o Estado e a ONU. Se a diplomacia for substituída pelo silêncio, a capacidade de monitoramento de direitos humanos em zonas de conflito torna-se praticamente nula. O precedente é perigoso: quando Estados decidem que a crítica internacional é inaceitável, a transparência e a prestação de contas tornam-se as primeiras baixas.
Para a comunidade internacional, o desafio é equilibrar a necessidade de documentar crimes sexuais com a realidade política de que a ONU depende da cooperação dos Estados para agir. A ausência de um diálogo funcional entre as partes envolvidas sugere que a violência sexual continuará a ser usada como arma de guerra, sem que haja um mecanismo eficaz para interromper o ciclo de impunidade que a própria ONU denunciou.
Perspectivas para a sucessão na ONU
A nomeação de um novo secretário-geral da ONU ainda este ano ganha contornos de urgência com essa crise. A gestão de Guterres termina sob o peso de um cisma diplomático que dificilmente será resolvido antes da transição. A forma como o próximo sucessor lidará com a lista e com a desconfiança de potências globais será determinante para a relevância da organização na próxima década.
O que resta observar é se outros países seguirão o exemplo de Israel em reduzir o engajamento com a ONU em resposta a relatórios de direitos humanos. O cenário aponta para uma fragmentação onde a autoridade das instituições multilaterais é cada vez mais desafiada por Estados que priorizam a narrativa nacional sobre a supervisão global. A fragilidade da ordem internacional nunca esteve tão exposta.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





